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Falar com Deus e de Deus

No início do século XIII, a Igreja vivia um período de nebulosidade, e concomitantemente, um grande espírito de renovação. São Domingos de Gusmão – o fundador da Ordem dos Pregadores, conhecida mais como Dominicanos, orientava seus frades a sempre “Falar com Deus e de Deus”. Assim, os frades mendicantes que inauguravam um novo estilo de vida religiosa, meio monges e meio de vida ativa, passaram a buscar essa intimidade com Deus e consequentemente atuar mais na sociedade. Razão essa que tornaria a Universidade um seguimento privilegiado como campo de ação pastoral, possibilitando articular a teologia e as várias outras ciências existentes até então, como também um viés para aprofundar o conhecimento sobre o homem em suas várias abordagens.

Percebe-se que inicialmente a colocação de São Domingos é simples, mas muito complexa em seus desdobramentos, pois é necessário conhecer bem a humanidade e conhecer melhor ainda Jesus, que nos revela quem é Deus Pai. Todo esse processo é exigente na medida em que é necessário falar partindo de si mesmo antes de falar sobre os irmãos. Exercício que nos leva a tomar consciência que todos são frágeis perante Deus e necessitados de sua misericórdia.

Constata-se que a mesma dificuldade da idade média ao falar de Deus e com Deus encontra-se presente nos dias de hoje. Todos estão expostos ao turbilhão de demandas do mundo: cada um mergulhado em sua realidade e muitas vezes dedicando-se pouco a “investir” em Deus. Para todos é um grande desafio a ser superado! Buscar transcender nossos muros na busca do ter e assumir a eternidade do ser em Deus.

Para tanto, falar com Deus requer conversão profunda de projeto de vida e consequentemente prioridade no relacionamento. Nessa relação de intimidade – e assim Deus deseja – constrói-se uma verdadeira amizade. Na amizade, as falas são fluídas, pois os dois comunicadores (no caso específico – Deus e o orante) encontram sintonia. Tal sintonia demanda assunto, e o assunto central é falar sobre como se deve ajudar a procurar sempre o bem de todos para que alcancem mais facilmente a salvação oferecida por Deus à humanidade. Não poderia ser diferente! Falar com Deus sobre os homens sofredores – prioritariamente e não exclusivamente – é colocar nas mãos de Deus a realidade vivida de seus filhos e filhas espalhados pelo mundo. Falar com Deus é falar sobre todos os homens e mulheres, adultos, jovens e crianças, entre oscilações de tristezas e alegrias. Falar com Deus, muitas vezes é não pronunciar nem uma só palavra. É calar-se! Pois tudo estará revelado no silêncio profundo e fecundo de se apresentar com o seu coração aberto e encher-se do amor de Deus. Falar com Deus, é ser o que se é, frente a frente, esperando sempre sinais divinos que possibilitem conduzir as ações humanas de todos. O encontro tanto poderá ser de suplica e/ou de agradecimento. A realidade é que orientará.

Para os brasileiros, inclui-se a realidade quando apresenta o quanto é gritante o sofrimento do povo com tanta corrupção; tantos desempregados; tantos políticos sem ética; tantas mortes por balas perdidas; tantos atendimentos não realizados nas unidades de saúde; tantos professores desamparados no exercício de sua vocação; e tantos e tantos. Como também agradecer tantas belezas encontradas no meio ambiente apesar do desmatamento e do desrespeito ambiental; e dos nascimentos de crianças puras e inocentes que devem ser educadas e orientadas para se tornarem entre outras coisas: HUMANAS.

Não se consegue falar sobre Deus aos homens, sem ter um encontro forte com Deus. É no diálogo com Deus que cada pessoa descobre o que fazer em meio aos homens, caso contrário falar-se-á de uma perspectiva intimista, arriscando elaborar uma oratória fria e etérea. Falar com os homens e mulheres partindo do fruto da fala com Deus revelado em palavras e gestos do orante o entendimento do que é o próprio Deus – misericórdia, delicadeza, fortaleza, justiça -. e do seu desejo de salvar a humanidade, promove-se o encontro do criador (Deus) com a criatura (o ser humano). Falar de Deus é expor-se desnudo, da mesma forma que Jesus esteve na cruz: frágil e forte; morto e ressuscitado; presente para sempre na vida de cada um, mesmo não sendo percebido – mas, estando sempre à espera.

Tudo dependerá de um exercício cotidiano. A experiência do silêncio. O deixar-se levar em nada fazer ou pensar, esperando a percepção do esvaziar-se de si mesmo e encher-se simultaneamente do amor de Deus. Forma-se uma cadeia de comunicação que vai ao encontro daquilo que viveu o próprio Cristo em sua vida histórica: sua constante relação com o Pai, falando de toda humanidade e para a humanidade o todo de Deus. O ritmo sempre deverá ser progressivo e cada um encontrará seu modo específico de Falar com Deus e de Deus.

 

Frei Mário Taurino, OP

Fonte: JO Arquidiocese de Belo Horizonte

 

 

 

Para refletir

A Igreja no Brasil proclamou a celebração do Ano do Laicato. O que é ser leigo na Igreja? Na sociedade? Como podemos nos envolver mais e ajudar o mundo a ser melhor?

Você Sabia

Leigo significa “do povo”. Os leigos são todos cristãos que, pelo batismo, estão incorporados em Cristo e, não pertencendo ao clero (bispos, sacerdotes, diáconos), participam na missão da Igreja no mundo.