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A Liturgia nos faz “empáticos” à realidade filial de Jesus

Vamos discorrer sobre a relação entre Celebração e Empatia. A questão proposta seria da razoabilidade da afirmação que as celebrações litúrgicas devem prover os fiéis empaticamente em relação ao Filho Jesus.

Primeiramente, cabe-nos apresentar o que pretendemos com este termo. Empatia, etimologicamente significa “penetrar a paixão ou a emoção” (=empathos). Biblicamente, a palavra “empatia” não é mencionada. Sobre seu significado, no entanto, não se pode dizer o mesmo. A sua raíz, pathos, possivelmente ligada à pascho, significa desde os tempos homéricos “experimentar alguma coisa que tem sua origem fora de mim mas que me afeta ou para o bem ou para o mal.”1 Encontraremos, assim, vários termos, com prefixos adicionais para caracterizar a experiência e seu impacto sobre o sujeito: kakopatheo (sofrer o mal), sympatheo (ter compaixão, simpatizar-se com), pathema (sofrimento), etc. Em muitas passagens, o termo ganhará a conotação ligada à experiência da dor, sofrimento e morte. Sobretudo, no Novo Testamento, se falara da paixão de Cristo e da participação de seus seguidores nela.

Para a psicologia, em geral, empatia diz respeito à capacidade de adentrar no mundo afetivo e identitário do outro, à habilidade de experimentar e assumir os sentimentos e condutas de outrem.2 Salvaguardando o aspecto patológico que este termo adquire na ciência psicológica ou funcional, no que se refere à necessária “empatia inicial” entre o terapeuta e paciente, gostaríamos de utilizar esta terminologia em seu aspecto mais positivo: de criar identificação emocional e comportamental com o outro.

A Liturgia, como um evento cultual, não se define apenas pela via doxológica (louvor), como apresentação de préstimos à divindade por sua atuação em favor do mundo dos seres humanos. Antes, conforme define o Catecismo da Igreja Católica, celebrar a Liturgia equivale a tomar parte na obra de Deusde modo que por ela “o homem interior é enraizado e fundado no ‘grande amor com o qual o Pai nos amou’ em seu Filho bem-amado.’”4Parafraseando Santo Irineu, a verdadeira glorificação de Deus consiste em o ser humano estar vivo segundo a nova condição – existência filial – oferecida uma vez por todas em Cristo Jesus.

A Liturgia, portanto, existe para promover o permanente “apaixonamento” dos fiéis por Cristo, uma verdadeira fusão de vida e identidade (empatia): filhos e filhas no Filho. Assim, se compreende porque o Pai é a “fonte e fim da liturgia”, conforme a afirmação do mesmo Catecismo.5 Uma vez unidos a Cristo, assumindo a condição filial por graça e não por direito, nossa vida torna-se completamente orientada para o Pai, pois a filiação depende exclusivamente da permanente experiência de perceber-se condicionado à paternidade/maternidade divina. Uma vez que esta condição não nos é natural, mas concedida, faz-se necessário um processo permanente de iniciação nesta modalidade de existir no mundo, como se procedêssemos do céu. A adoção filial exige a Liturgia. É por ela que somos iniciados ao Mistério; nela que somos conduzidos pela mão à intimidade familiar de Deus pelo Via que é Cristo. Por esta razão tem sentido a afirmação de René Bornet sobre a Liturgia como mistagogia, recolhida pelo liturgista Gofredo Boselli:

“A mistagogia é, em primeiro lugar, a realização de uma ação sagrada e, em particular, a celebração dos sacramentos da iniciação, Bastismo e Eucaristia. (…) a liturgia é, em si mesma, mistagogia, ou seja, é de per si capaz de ser epifania do mistério, de modo que a liturgia inicia ao mistério, celebrando-o. (…) isso significa reconhecer à liturgia a prerrogativa de ser ação teologal, isto é, ação de Deus mesmo, e que ela, por isso, realiza aquilo que significa.”

Logo, a Liturgia nos faz “empáticos” à realidade filial de Jesus por sua qualidade inerentemente mistagógica.

 

1 Sofrer. In. COENEN, Lothar. BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 2412-2419.
2Cf. http://www.portaldapsique.com.br/Dicionario/E.htm . Várias apropriações do termo aparecem nesta direção. Veja, por exemplo: http://www.significados.com.br/empatia/ e também https://sites.google.com/site/dicionarioenciclopedico/empatia . Neste último, destaque para “a empatia cria uma identificação psíquica.”
3Cf. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Co-edição Loyola, Vozes, Paulus, Paulinas, Ave Maria, 1999, n. 1069.
4Idem, n.1073.
5 Idem, Parte II, Capítulo I, Artigo 1.1

 

 

 

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)
Paróquia São Sebastião e São Vicente

Para refletir

A Igreja no Brasil proclamou a celebração do Ano do Laicato. O que é ser leigo na Igreja? Na sociedade? Como podemos nos envolver mais e ajudar o mundo a ser melhor?

Você Sabia

Leigo significa “do povo”. Os leigos são todos cristãos que, pelo batismo, estão incorporados em Cristo e, não pertencendo ao clero (bispos, sacerdotes, diáconos), participam na missão da Igreja no mundo.