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Palavra do Pároco

HOMILIA DA FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ – 2011

 MISSA CAMPAL – IGREJA SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


Percorrendo o itinerário das leituras propostas para a liturgia de hoje nos damos conta de que o livro dos Números nos ajuda na compreensão da graça que nos foi e continua sendo dada. “Este alimento miserável” de que fala o livro faz referência ao maná. O povo de Israel, depois de uma longa experiência no deserto sendo nutridos por este alimento que vinha do céu, se sentia enfastiado e a lembrança cômoda do tempo do cativeiro no Egito causava o desejo da volta, do andar para trás. E a que o mesmo alimento miserável que se refere nesta primeira leitura, o livro da Sabedoria e dos Salmos vão se referir como o alimento dos fortes e o pão dos anjos. Deus, na sua sabedoria, e o povo, na sua forma de compreensão, marcada por uma época, tecem uma relação de pai e filho, onde o pai tem o dever de educar e conduzir o filho, muitas vezes por caminhos dificeis. Aqui o caminho dificil é a comodidade dos filhos que blasfemam e teimam em procurar no conhecido, ou seja, na vida que tinham no Egito, o porto seguro para suas vidas. O povo, se cansa de buscar a terra prometida que parece não chegar nunca. Renegam o alimento dado por Deus. Isolam-se e o mal, tantas vezes expresso em forma de serpente na Bíblia, cruza o caminho dos israelitas e eles perecem. Perecem porque se afastam de Deus, porque procuram a facilidade e a ilusão das soluções mágicas para seus problemas e suas vidas. Esta é a história de nossos antepassados. Será que é tão diferente da nossa história hoje?
Contra  o mal-serpente, Deus pede que se faça “uma serpente de bronze e a coloque no alto…”. Não é mais a serpente que rasteja, que engana, que entra às escondidas, roubando o coração e a vida do povo, dos filhos, mas é o simbolo daquele que está no alto, no lugar às claras, onde todos podem contemplar e encontrar significado para continuar a jornada em busca da terra da promessa. O alto, a aste, o poste, é a figura da Cruz e a serpente de bronze, nas alturas, é a figura do Salvador, que vai ao encontro de todos os homens e mulheres mordidos, picados, pelo mal, desde que olhem para as Alturas, para o Cristo com fé.   A segunda leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo e nos ensina ainda mais quem é Jesus, como buscá-lo e quem é Deus. Jesus “de condição divina”, ou seja, Filho de Deus, Deus com Deus “não se valeu da sua igualdade com Deus”, mas viveu com propriedade intensa a condição humana, ensinando o homem e a mulher a vencer a maldade e o pecado que se nos apresenta rasteiro, escondido e nas trevas, como a serpente. Assim, olhamos admirados e quase sem entender a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, quis sefazer semelhante aos homens e mulheres (v. 7) e “aniquilou-se a si próprio”, ou seja, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação da majestade que Lhe competia para “assumir a condição de servo”, deixando-se conduzir por Deus como pobre e dependente, cumprindo a figura do servo sofredor tão cara a Isaías. Ele “tornou-se semelhante aos homens e aparecendo como homem”… “humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz” (v. 8). Observamos, assim, a total obediência e aniquilamento de Jesus.  Ele obedece com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a de um malfeitor, a morte de cruz!
Este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota ou apenas um desfecho de uma história trágica, mas, o sublime paradoxo da sua exaltação: foi por isso mesmo que Deus (não Ele próprio, mas o Pai) “O exaltou” de modo singular e único. A esta exaltação corresponde o nome que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os fiéis de todos os tempos: Kyrie – “Senhor”. Por isso toda língua proclama que Jesus Cristo é o Senhor. O texto evangélico é tirado do diálogo de Jesus com Nicodemos. Não é fácil distinguir em João o que são palavras de Jesus ou sua própria reflexão, divinamente inspirada. Destacamos hoje, nesta pequena reflexão, o versículo 14 em diante: “Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do Homem será elevado”. São João reflete sobre dois sentidos desta elevação: elevação na Cruz e elevação na glória. E isto não é um simples artifício literário, mas encerra um mistério profundo, pois é na Paixão (na Cruz) que se manifesta todo o amor (cf. Jo 13,1). Na cruz elevada está o grito da humanidade muitas vezes sucumbida pelo mal, pelo pecado. Este mesmo mal e pecado ficam evidente na trama que leva Jesus à morte. Outra forma de João pensar a elevação se dá no sentido da ressurreição (da Glória) que culmina na vida eterna.
Assim, já não olhamos mais para a serpente de bronze elevada nas alturas, mas para a Cruz com o Cristo. Esta Cruz de Cristo, que está, simbolicamente, sobre nosso peito, nas nossas igrejas, nas nossas casas e, ainda, em muitos lugares de trabalho nos indica o caminho para a liberdade, nos recorda que em tempos difíceis a humanidade foi abraçada de lado a lado pela cruz de Jesus. O olhar atento e com fé, com toda certeza, marca a caminhada da nossa paróquia, nestes dezoito anos (a maioridade do crecimento na fé). Também nós que carregamos a cruz de Cristo passamos por crises, desejamos muitas vezes voltar ao Egito da comodidade, relutamos em mudar e crescer. Mas, não desanimamos! Hoje estamos aqui no espaço da Igreja do Sagrado Coração. Espaço cedido generosamente por pessoas de Deus, pessoas que carregam a cruz de Cristo. Então atravessamos o deserto também! Vamos reclamar do pão vindo céu? Vamos parar e olhar para traz desejando voltar? Vamos nos deixar ser mordidos pelas serpentes destes tempos? Creio que não!
Atravessamos tempos dificeis para a Igreja e a fé. Atravessamos momentos de incompreensão, renegação, falta de vocações tanto para os ministérios dos leigos quanto para vida presbiteral e religiosa,  mas permanecemos na fé, como Maria ao pé da Cruz e com esperança cantamos com toda a tradição da Igreja: Eis o lenho da cruz, do qual pendeu a salvação do mundo!Que pelo mistério da Santa Cruz e da ressurreição de Cristo, sejamos salvos! Amém!
Pe. Adilson Ap. Silva, SJPároco
Para refletir

“Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. Muito mais agora, que já estamos justificados pelo sangue de Cristo, seremos salvos da ira por ele.” Rm 5,6-11

Você Sabia

Recomeça o Tempo Comum que é dado pela leitura contínua do Evangelho. Cada texto proclamado nos coloca no seguimento de Jesus Cristo, desde o chamamento dos discípulos até os ensinamentos a respeito dos fins dos tempos.