Tamanho da Letra

A espiritualidade do Tempo Comum

A reforma litúrgica promovida a partir do Concílio Vaticano II almejou repropor a celebração do Mistério Pascal como centro ao redor do qual gravita a vida cristã. Assim, a Liturgia vista não mais apenas sob o viés jurídico ou como aparato cerimonial, foi acolhida – como nas origens – como um acontecimento teológico de alta densidade, estreitamente vinculado aos desígnios de salvação de Deus. A noção de História da Salvação foi recuperada e as celebrações da Igreja voltaram a ser consideradas o lugar por excelência de sua experiência. Não só culto público, mas verdadeiro acontecimento eclesial que realiza a Igreja na sua natureza mais íntima. Não só uma realidade compreendida e regulada no binômio direito-dever, mas sobretudo como tempo de graça.

Uma vez que o Mistério Pascal de Cristo ocupa lugar nuclear no edifício litúrgico, a Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium tratou de referendar as celebrações como exercício do sacerdócio de Cristo, por meio do qual Deus é glorificado e o povo é santificado. Para tanto, a mesma constituição desenvolve uma teologia da presença de Cristo, fundamental nesta nova elaboração teológica da Liturgia e, sobretudo, iluminadora no que se refere à aplicabilidade pastoral.

A primazia do Dia do Senhor

O núcleo do Ano Litúrgico e seu fundamento é o Domingo . Dele se origina todo o complexo ritual que se desdobra em um calendário trienal. Segundo a NALC , “A Santa Igreja celebra a memória sagrada da obra da salvação de Cristo, em dias determinados, ao longo do ano (…) No decurso do ano, explana todo o mistério de Cristo e comemora também os dias natalícios dos santos.”

O Domingo, que segundo a tradição apostólica tem origem por ocasião da ressurreição do Senhor. Neste dia, os fieis são convocados à prática da sinaxe eucarística, isto é, a assembleia dominical para escutar a Palavra de Deus e repartir do Pão Consagrado, o que realizam recordando a Ressurreição do Senhor.

Esta prática – de ir à Missa – definiu muitas vezes os cristãos. Nesta celebração, aqueles que foram enxertados em Cristo por ocasião do Batismo e dele e de seu Pai receberam o Espírito tem a possibilidade de assimilar gradativa e permanentemente a vida de Jesus, tornando-se suas testemunhas. Assim se exprime a própria oração da Igreja: “Pela participação neste mistério, ó Pai todo-poderoso, santificai-nos pelo Espírito e concedei que nos tornemos semelhantes à imagem do vosso Filho.”

Neste sentido, a SC insiste que os cristãos devem reunir-se em assembleia aos domingos para ouvir a Palavra de Deus e participarem da Eucaristia, e assim recordarem a paixão, ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que os “gerou de novo pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos para uma esperança viva” (1Pd 1,3) .

Seguindo esta intuição, fundada na Sagrada Escritura, fundamentada prática apostólica e na teologia patrística, a Igreja ordena que ano litúrgico seja revisado a fim de que o espírito do fieis seja orientado com fins a celebrarem o mistério da salvação. O Ano Litúrgico, portanto, deve ser assumido como verdadeiro sacramento da História da Salvação, que em Cristo encontra seu fundamento e sua plenitude.

O Tempo Comum

Não poucas vezes a designação de “comum” ao tempo per annum causa-nos a impressão de o Tempo Comum possuir menor importância em relação aos outros ciclos (Páscoa e Natal). Mas, como dirá Matias Augé, se trata, ao invés, de um período riquíssimo que a Igreja dispõe para assimilação do Mistério de Cristo seja na vida pessoal dos fieis, seja na comunidade eclesial.

É importante reiterar que a Igreja se pôs a reformar a liturgia porque reconhecia há mais de cinquenta anos que a vida cristã não mais era alimentada pela celebração do Mistério Pascal, mas mediante a prática devocional ou outras atividades semelhantes. Trazendo à tona as intuições de Pio X no princípio do século XX, os padres conciliares em 1963 insistiram que o culto litúrgico é o lugar no qual se pode haurir verdadeiramente e de modo singular o espírito cristão. Isto porque “Se quiséssemos ler a íntima essência de uma celebração litúrgica, poderíamos dizer que os ritos cristãos são eventos, que narram de novo, de modo criativo e poético, na história, a loucura e a beleza do amor com os quais Deus nos amou, dando-nos o seu Filho.

Ora, o Mistério Pascal que se celebra na Liturgia é visto durante o Tempo Comum sob o aspecto da sua globalidade, o que pode se notar na própria designação que é alterada. Antes do Concílio, se denominava o Domingo e a Semana como depois da Epifania e depois de Pentecostes. Criava-se, então, uma tal dependência dos Ciclos do Natal e da Páscoa, respectivamente, que não transparência a riqueza, vitalidade e coerência do período que o Concílio determinou como Tempo Comum.

Assim, o que se celebra no Tempo Comum, de maneira progressiva e conexa é a obra de Cristo. A Liturgia celebrada é memorial, e pela qual ele nos salva. Ela coincide com sua existência inteira que, sem reservas, nos foi oferecida por nós. Na sua humanidade, Deus nos dignifica, devolvendo à humanidade o lugar de honra que ocupara quando de sua criação. Parafraseando o rabino Herschel que afirmava o Sabat como ocasião na qual Deus recorda ao ser humano sua realeza, podemos dizer que o trabalho de Jesus, por seus gestos e palavras, foram nesta mesma direção. Em Cristo o ser humano pode contemplar-se a si mesmo, livre de toda corrupção e injustiça, na transparência da “arquitetura original” a partir da qual a Palavra de Deus o forjou. Este agir de Jesus Cristo, denominado na tradição cristã de Mistério Pascal. Corresponde à existência inteira do Filho. A encarnação, ministério, paixão, morte, ressurreição, ascensão e envio do Espírtio. É a própria vida do Filho dada por nós, como compêndio de toda a História da Salvação. Tudo quando Deus quis e quer para seu povo, o realiza e oferece em seu Filho Jesus Cristo. Por essa razão, não só o Novo Testamento comunica o Mistério Pascal, porque nEle se narra e difunde a obra de Cristo e da Igreja, mas também o Antigo Testamento no qual contemplamos a face do mesmo Cristo, por detrás de cada ação benevolente que Deus realiza em favor do seu Povo.

Enquanto nos Ciclos do Natal e da Páscoa, respectivamente, a Igreja se debruça sobre os mistérios específicos da encarnação e da paixão, morte e ressurreição do Senhor (ainda que não o faça desconectado da totalidade do Mistério que é a pessoa mesma do Cristo), o Tempo Comum, que se estende por trinta e três ou trinta e quatro semanas por ano, narram de maneira gradativa e inter-relacionada os eventos da vida de Jesus manifestos em seu ministério a partir do Batismo nas águas do Jordão. Esta narração é enriquecida ainda com a distribuição trienal (anos A, B e C) do Lecionário (no caso dos Domingos). Por essa razão

Não se pode opor aqueles tempos considerados “tempos fortes” (Advento-Natal-Epifania / Quaresma-Páscoa) ao Tempo “durante o ano” como este último fosse um tempo fraco e inferior. Se os “tempos fortes” gozam de uma característica própria em sentido teológico e pastoral, não se pode deixar à parte o período do ciclo cotidiano que é o tecido concreto da existência diária do cristão na ferialidade. De certa maneira, o Tempo Comum deve ser considerado “tempo forte” no qual se aprofunda e assimila o mistério de Cristo que se realiza na vida dos crentes para assumi-la e torná-la “pascal”. O tempo “durante o ano”, anterior aos “tempos fortes”, pode ser considerado o tempo primordial, ou seja, a primeira realidade na sucessão ininterrupta dos domingos no curso do ano. Se trata dos domingos em “estado puro”.

 

Elementos importantes para a espiritualidade

Piero Marini afirma:

Se a Liturgia é toda a vida do Filho e nele, a vida da Igreja, seu corpo, realmente não pode ser também fonte inesgotável e ápice da vida de todo cristão? (…) Por isso a Sacrosanctum Concilium define a liturgia como “ a primeira e indispensável fonte da qual os fieis podem atingir o verdadeiro espírito cristão” (SC 14). Não há fontes mais vivas, não há outra realidade maior na Igreja onde nós possamos atingir a verdade do nosso crer. A liturgia é a primeira e necessária experiência da fé, porque nela nós encontramos o autêntico sentido de sermos cristãos. É a “fonte de água viva, límpida como cristal” (Ap 22,1), tão límpida que olhando para ela, como um espelho, nós encontramos impressa a imagem da nossa vida cristã e daquilo a que somos chamados a ser e nos tornar como cristãos.

É na liturgia, portanto, que nós somos nascidos para a fé e é nela que continuamos a nutrir a vida da nossa fé. Por isto, os Santos Padres e a liturgia mesma descreveram a assembleia litúrgica como o útero da santa mãe Igreja, onde o cristão é concebido pelo Espírito Santo, nasce para a vida nova em Cristo, é marcado com o selo do Espírito Santo, é nutrido com o pão da vida e, na comunhão dos irmãos e das irmãs, cresce na fé “até alcançar a medida da plenitude de Cristo” (SC 2).

Compreendendo o Tempo Comum por esta ótica, o primeiro elemento que devemos ter presente no que se refere à formação do espírito de Cristo em nós, diz respeito à fidelidade no seguimento de Jesus. Pelo Batismo e Confirmação, fomos atraídos para sua convivência e, mediante o discipulado, tornarmo-nos um com ele e com ele, transformarmo-nos nEle, realizando-nos, aos olhos do Pai e do Mundo, como filhos no Filho para anunciar no mundo a obra de nossa redenção.

Assim, por exemplo, no segundo domingo do Tempo Comum, a Igreja reza ao Pai solicitando-lhe que nossa vida seja dirigida segundo Seu amor. Segue-se a esta oração, na Liturgia da Palavra do o chamado de João e Tiago (Ano A), o convite para que seguindo-o, André e Pedro, o conheçam e permaneçam com ele (Ano B) e para que os convidados ao casamento em Caná tomem reconheçam e tomem parte na hora de Jesus (Ano C).

Abrindo-se, pois, o itinerário do seguimento de Jesus – que deve encontrar eco na vida dos que narram seu mistério na assembleia dominical – os domingos vão sendo agrupados a partir da leitura semicontínua dos Evangelhos de Mateus (Ano A), Marcos (Ano B) e Lucas (Ano C). Todo o ministério de Jesus é narrado e gradativamente Ele se vai dando a conhecer. Sua presença sacramental na assembleia litúrgica torna-se um evento na vida dos fieis e estes se assumem dentro da própria História da Salvação que tem Cristo como fonte, fundamento e desfecho.

Seria surpreendente e altamente pedagógico fazermos o exercício de ler e transcrever as referências temático-litúrgicas das perícopes de todos os domingos de cada ano, e verificarmos como o Tempo Comum narra Cristo, per ritus et preces, no coração da assembleia. Nesta perspectiva, compreenderíamos o Tempo Comum como ocasião na qual a existência cristã vai tomando forma segundo o Mistério de Cristo. Uma vez que “a finalidade da vida espiritual é a realização da resposta existencial ao dom de Deus, realizada em uma conformação à imagem e aos sentimentos de Cristo, segundo a própria vocação particular da Igreja” , o Tempo Comum coopera na concreção desta vocação.

Outro elemento importante para a espiritualidade que encontramos no Tempo Comum e que está ligado ao seguimento de Jesus é o conhecimento crescente de sua vida como realização do amor de Deus desde a fundação do mundo e o assumir progressivo de seus gestos como realização sacramental da Palavra de Deus. “O Tempo “durante o ano” é o tempo no qual a vida do Espírito é destinada ao aprofundamento, à concretização, com o fim de conduzir os cristãos a uma existência madura e consciente.” Conforme nos ensina a oração da Igreja, quando nos reunimos por seu amor é Ele mesmo quem nos revela as Escrituras e parte o pão para seus convivas. A cada domingo nos é revelada a vida divina que se pode notar mediante a existência terrena de Jesus narrada nos evangelhos. Esta mesma existência é interpretada no conjunto da Revelação, de modo que o Antigo Testamento (I leitura e Salmo) e o NT (Evangelho e II Leitura) harmonizam-se perante o olhar e os ouvidos da assembleia dominical. Assim, os cristãos contemplam em Cristo a síntese da História da Salvação e assumindo seus gestos e palavras penetram o âmago desta mesma história. As antífonas de entrada e comunhão e a eucologia de cada domingo, que se repetem nos anos A, B e C cooperam para que a riqueza da vida de Jesus se exprima – já no interior da celebração – na corporeidade da assembleia. Podem, assim, olhar para si mesmos e como Agostinho, reconhecer-se sobre o altar como corpo de Cristo.

Um terceiro aspecto a ser considerado é a tensão escatológica que o Tempo Comum nos faz experimentar. Ainda que esteja destinado a realizar no hoje histórico a vida de Jesus, somos postos na direção de um destino que se vai forjando a partir da resposta cultual e existencial da Igreja, com vistas à plenitude. O Domingo, durante o Tempo Comum, nos dá uma mostra clara da salvação hodierna em Cristo, fazendo-nos contemporâneos dele, mas, como processo de amadurecimento e crescimento rumo à estatura de Cristo mediante o discipulado, também revela os impulsos que podem nos lançar na direção contrária. Estamos salvos em Cristo, mas esta salvação precisa enraizar-se no devir histórico. O caráter cíclico da páscoa semanal nos alerta para este fato. Não estamos prontos. Embora Deus enxergue em nós as feições de seu Filho amado, por sua Encarnação, é bem verdade que nossa realização no interior da história humana em contato com a complexidade de relações que tecem o mundo nem sempre corresponde a esta expectativa divina de sermos conforme seu Filho. Mas, conforme nos diz a carta aos Hebreus, Ele (Deus) nos deu um mediador que, a seu tempo nos auxilia e em tudo compreende nossa condição e se compadece de nós pois se tornou semelhante a nós para que fôssemos tornados segundo sua imagem (cf. Hb 4,15). Deste modo, o que nos restaria senão rezar:

Guardai, ó Deus, o vosso povo que vos implora, dando-lhe a pureza e a formação necessárias, para que, sustentado por vós nesta vida, possa conquistar os bens futuros. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

 

 

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)
Paróquia São Sebastião e São Vicente

Para refletir

A Igreja no Brasil proclamou a celebração do Ano do Laicato. O que é ser leigo na Igreja? Na sociedade? Como podemos nos envolver mais e ajudar o mundo a ser melhor?

Você Sabia

Leigo significa “do povo”. Os leigos são todos cristãos que, pelo batismo, estão incorporados em Cristo e, não pertencendo ao clero (bispos, sacerdotes, diáconos), participam na missão da Igreja no mundo.