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A fé, fruto da Palavra

A Palavra de Deus, é a razão primeira e última de nossa existência. Por ela viemos à luz, nela caminhamos e para Ela nos dirigimos. Como dissera outrora Erasmo de Rotterdam, não é a conversa a melhor delícia da vida? Sem a palavra, definhamos, perdemos a noção de tempo e de lugar, tornando-nos alheios ao presente; e, assim, desconhecemos e desconectamo-nos do nosso passado e fechamo-nos ao futuro. Numa palavra perdemos o senso de identidade e de alteridade. Isso se aplica sobretudo a nosso caso, quando falamos do Verbo da Vida, pelo qual tudo foi feito e pelo qual tudo subsiste.

Esta nossa vocação primordial para o diálogo com o Criador se exprime nas celebrações da Igreja pela Liturgia da Palavra. É um “Tu” que se afirma diante da assembleia reunida em oração. Trocam gestos, carícias, palavras e silêncios (e nessa hora, quem sabe, olhares, pois quando se trata da Palavra de Deus, sua voz se ouve também pelas vistas!). Assim, em parceria, vão constituindo o tecido da existência. O ser humano assemelhando-se mais e mais à imagem de quem foi criado, e o Criador plasmando-se nele, elaborando uma imagem de si mesmo, imprimindo-se em nós.

Na ordem dos ritos pode-se discernir dois momentos distintos em que a Palavra Divina passa de “boca em boca”. Primeiro, fala o Senhor. Até o marco da homilia é Deus mesmo fracionando seu Verbo para alimentar-nos. Este “discurso espiritual (…) devia se associar à Palavra de Deus que ressoara da Escritura (…) levá-la para sua continuação dentro do aqui-e-agora”. Neste sentido – já debatido no artigo anterior – a homilia é Palavra de Deus, pois é o Espírito que fala e sopra em nós a Vida de Cristo Jesus. Mas é também “palavra viva da Igreja (…) como testemunho daquele mundo mais sublime dentro do qual ela vive e no qual ela entra novamente através da Celebração Eucarística.” Logo depois, em se tratando da Missa Dominical e solenidades, temos o desdobramento da palavra da Igreja com a Profissão de fé. Todos se levantam e recitam ou cantam as verdades fundantes e fundamentais que sustentam o edifício eclesial. Atualmente, pode-se fazê-lo com duas fórmulas: o Credo Niceno-Constantinopolitano ou o Credo Apostólico, sendo esse último mais difundido na Igreja de rito romano. Trata-se da confissão de fé batismal que, tanto no Oriente quanto no Ocidente, estrutura-se a partir da presença e ação da Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. A Profissão de fé na Missa “tem como finalidade que a assembleia reunida dê seu consentimento e sua resposta à Palavra de Deus ouvida nas leituras e na homilia”.

Terminada a Profissão de Fé, ainda de pé, a comunidade dos fiéis volta-se para o Senhor e, mediante um ministro (quase sempre), apresenta suas orações. Sua estrutura é litânica: são apresentadas intenções e o povo a elas adere pela prece comum. Essa oração é muito antiga na prática litúrgica da Igreja. Como muito bem orienta a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR 69): “Na Oração universal ou oração dos fiéis, o povo responde de certo modo à Palavra de Deus acolhida na fé e, exercendo sua função sacerdotal, eleva preces a Deus pela salvação de todos”. José Aldazábal nos lembra também que a Oração Universal ou dos Fiéis, conforme o Elenco de Leituras da Missa é o fruto da escuta da Palavra de Deus.

… que da Igreja recebemos…

As Escrituras, em particular o Novo Testamento, são o registro ou testemunho das memórias da Igreja em seu momento fundante, enquanto a Palavra de Deus lhe chamava à existência e lhe oferecia os contornos originais da fé. Por essa razão não se pode fazer teologia cristã sem buscar na Bíblia seu argumento primeiro e decisivo.

Tomando os quatro evangelhos nas mãos podemos colher o objetivo das “memórias” da comunidade pascal ao narrar o mistério e ministério de Jesus de Nazaré, acontecido no século primeiro de nossa era: Mateus se exprime no último versículo de seu Evangelho dizendo: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem meus discípulos, batizando-os (…) e ensinando-os a observar (gr. terêin, guardar, seguir no sentido de cumprir um mandamento) tudo quanto vos ordenei;” Marcos diz no primeiro versículo de seu escrito: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” e termina – na redação canônica – com “E eles saíram a pregar por toda parte, agindo com eles o Senhor, e confirmando a Palavra por meio dos sinais que a acompanhavam”; Lucas, por sua vez, escreve para que “[Teófilo] verifique a solidez dos ensinamentos que recebeu, tendo conhecimento dos eventos que se cumpriram e foram transmitidos “desde o princípio” por testemunhas oculares. O discípulo termina seu primeiro escrito com Jesus abrindo-lhes a inteligência para que compreendessem as Escrituras e tudo que ao Cristo se aplicava, de modo que “em seu Nome fosse proclamado o arrependimento para a remissão dos pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso”; E, por fim, João: “No princípio era o Verbo”, culminando seu evangelho com uma primeira conclusão: “Jesus fez ainda, diante de seus discípulos, muitos outros sinais, que nãos e acham escritos neste livro. Esses, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para, crendo, tenhais vida em seu nome”.

Há alguns elementos em comum aos evangelhos no que concerne ora ao começo (com exceção de Mateus) ora à conclusão. Um primeiro elemento diz Jesus; cada evangelista a seu modo insere a preocupação com o prolongamento da Boa Nova mediante o anúncio da Igreja – Marcos usa o termo grego kerigma em sua conclusão breve . Tudo quanto se refere a Jesus e a seu trabalho de anunciar o Reino de Deus não pode se perder, mas deve perdurar. Outro aspecto que aparece é que as narrativas do Evangelho são construídas para constituir discípulos. Sobre isso trata Mateus falando explicitamente em seguimento e cumprimento, mas também Lucas e João abordando a temática do testemunho. O Evangelho alcança a vida de pessoas concretas e em sua existência ganha forma e é transmitido às gerações vindouras. Marcos, Lucas e João falam do que se deu no “princípio”. Um termo muito rico semântica e teologicamente em se tratando da Sagrada Escritura. “

O termo “princípio”, em grego arché, quer dizer início, mas também significa causa, origem, explicação (…) Trata-se de apresentar Jesus como um novo princípio, uma nova origem, uma nova gênese (cf. Gn 1,1). A proclamação do Evangelho por Jesus dá origem a um novo mundo, a uma nova criação (…) O princípio é o próprio Evangelho proclamado por Jesus, enquanto é considerado um novo alicerce ou fundamento da vida, nova origem do mundo. Mas também no sentido de que toda a ação de Jesus é só o início, dá origem, desencadeia um processo que tem de prosseguir para além de sua existência terrestre. Os discípulos estão chamados a recomeçar a mesma tarefa, a retomar sua caminhada a partir da Galileia. O Evangelho, origem de um mundo novo, é o acontecimento que principia com Jesus e tem nele o seu fundamento, e prossegue com os discípulos (…).

… e sinceramente professamos…

Com o que fora dito até aqui não é difícil perceber que o anúncio do Evangelho, a proclamação da Palavra de Deus realizada em Jesus de Nazaré, continuada e cumprida no seio da Igreja se desdobra como “acontecimento da fé”. João, no texto citado acima, diz ser a fé a finalidade do evangelho e, por ela, a vida nova que brota do Nome (isto é, da pessoa) de Jesus, Verbo feito carne: “estão escritos para que creiais e crendo tenhais vida.”

O grego bíblico utiliza-se do verbo pisteúo e do substantivo pístis para dizer “fé”. Estas palavras, por sua vez, traduzidas apenas por crer ou crença, confiar ou confiança não explicitam o sentido bíblico mais profundo pois a fé é bem mais do que dar crédito, acreditar ou ter confiança. Na versão dos Setenta (a Bíblia Grega) pisteúo e pístis são empregados para traduzir o hebraico emunah. Esta palavra “tem na Bíblia um sentido de confirmação e confiança, de compromisso de todo o ser com a verdade tal como é relatada, vista ou testemunhada.” Assim, podemos dizer que a palavra bíblica emunah e sua versão grega pisteuo ou pistis refere-se à fidelidade tanto do ser humano quanto de Deus. Pode-se localizar esta experiência no contexto e uma aliança. Há portanto um “Tu” em quem se deposita a confiança. Esse “Tu”, o totalmente Outro por sua transcendência, é Deus.

Mas, para os cristãos e cristãs, esse “Tu” eterno se revelou no “Tu” humano de Jesus. Ter fé, portanto, na tradição cristã se vinculará à experiência de associação à vida de Jesus como acontecimento epifânico, ou seja, que traz à luz a Verdade de Deus. Como na tradição hebraica, ter fé portanto se insere na confiança absoluta e fiel a Verdade que é Deus, tornando-nos honestos e íntegros no sentido de “o que fazemos e o que dizemos deve ser sempre transparente, acessível a quem queira ver e ouvir e capaz de passar em qualquer teste humano de veracidade.” Aplicando esta noção a Jesus Cristo, a fé aparece como nosso assentimento e vínculo a seu Mistério. Santo Agostinho numa belíssima passagem em uma de suas homilias em que comenta o Símbolo que é devolvido pelos catecúmenos na Vigília Pascal assevera:

Comemora a tua fé, olha para dentro de ti. Seja para ti o teu Símbolo como um espelho. Olha-te nele, para ver se crês tudo o que declaras crer. E alegra-te cada dia na tua fé. Seja ela a tua riqueza, seja como que a roupa cotidiana da tua alma. Não te vestes quando te levantas? Pois do mesmo modo hás de vestir a alma com a memória do Símbolo, não aconteça que a dispa o esquecimento… A nossa veste será a nossa fé; a fé deve ser túnica e couraça… Quando chegarmos ao lugar onde reinaremos, já não teremos necessidade de dizer o Símbolo. Veremos a Deus; o próprio Deus será a nossa visão e a visão de Deus será então o prêmio da fé atual.

Não nos é muito difícil compreender que a fé é a própria Palavra de Deus habitando em nós, rejuvenescendo-nos pelo Evangelho de Cristo, conforme ensina Santo Irineu: “Esta fé, que recebemos da Igreja, a conservamos com cuidado, porque, sem cessar (estamos), sob a ação do Espírito de Deus; como um depósito de grande valor, guardado em um excelente recipiente, a fé rejuvenesce e faz rejuvenescer ao mesmo recipiente que a contem.”

… razão de nossa alegria em Cristo, nosso Senhor.

O que é a profissão de Fé e seguida a ela a Oração Universal ou dos Fiéis no contexto ritual (seja ele Eucarístico ou mesmo em outras celebrações sacramentais) senão a experiência hodierna em responder pontualmente à Palavra de Deus; permitir que no “tu” da Igreja ressoe o “Tu” do Verbo que nos dá a vida. Trata-se de uma verdadeira adesão, não apenas em sentido intelectual à verdades religiosas, mas que é “’simbólica’ no sentido original e etimológico do termo: unir numa só fé” . A celebração litúrgica, portanto, como fé em ato com sua Liturgia da Palavra nos transforma – sacramentalmente – em palavra de Deus à medida que acolhemos em nós o Verbo da Vida que acabara de narrar-se para nós e em nós.

O Evangelho não é uma realidade neutra que se pode apresentar com uma objetividade abstrata. Como se viu antes, é essencial ao Evangelho, ser uma mensagem transmitida no interior de um testemunho vivo da fé, é uma mensagem confessada. Todo aquele que anuncia entra no verbo “eu creio”, que traduz o compromisso concreto de um crente e da comunidade, em sua viva adesão ao Mistério de Cristo.

Interessante notar que, na celebração Dominical passamos às preces – conforme o rito atual – somente depois do assentimento da Comunidade de fé. Como se disséssemos: “agora, fazendo nossa a Palavra, podemos nos dirigir em ação de graças (Oração Eucarística) e súplicas (Preces e tb. Oração Eucarística) ao Pai do Céu porque respondemos desde o lugar de seu Amado Filho, pois fomos rejuvenescidos, conduzidos à nossa origem, pelo Espírito Santo que habita em nós.” Na Oração dos Fiéis manifestamos o desejo de que “se realize para nós, para toda a Igreja e para a humanidade o que a Palavra pôs em nossos corações (…) as preces deveriam ser o eco das provocações que provém da Palavra de Deus.”

Graças a Deus!

Terminada nossa peregrinação desde os ritos, passando pelas fontes bíblicas e patrísticas, voltando à prática celebrativa para qualificá-la com nossas descobertas, como podemos enxergar para além e em decorrência do culto – existencialmente, portanto – a experiência da Fé? Façamos o esforço de verificar quais aspectos de nossa vida nosso “Eu Creio” interfere e determina, ou seja, como a Verdade de Deus ou que é Deus se torna clara em nós? Pensando nas grandes questões pelas quais passa nosso país: a corrupção dos servidores do povo (em vários níveis: político, civil, religioso…); a crise do sistema democrático; a insegurança quanto ao modelo de Igreja que fomos constituindo no último século… Em que a fé pascal contribui ou como ela se manifesta e se faz notar? Como continuam nossas buscas neste cenário e em que dimensão são afirmadas nossas certezas? Questões … questões … questões …

 

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)
Paróquia São Sebastião e São Vicente

Para refletir

Quem está em consolação preveja como se há de portar no tempo da desolação, que depois virá, tomando novas forças para esse tempo.

E.E 323

Você Sabia

Buscando estimular a participação em Políticas Públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de fraternidade, a Campanha da Fraternidade 2019 terá início em todo o país no dia 6 de março.