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A morte de nossas crianças e a nudez de nosso Brasil

Em pouco mais de uma semana, nosso país reagiu visceralmente a dois acontecimentos que envolviam adultos e crianças: uma polêmica instalação artística, num museu em São Paulo, e uma tragédia até agora inexplicável, numa creche em Janaúba. Em ambos os casos, ainda que em níveis bastante diferentes, os fatos causaram escândalo: em muitos, no primeiro caso; em todos, no segundo.
Tudo o que diz respeito às crianças toca zonas muito profundas de nossa humanidade: as grandes agências de publicidade já perceberam isso há muito tempo. Quando as vemos em boas condições, brota espontaneamente em nós um sentimento de ternura, de bem-estar, de bem-querer. Quando as vemos em más condições, surge instantaneamente em nós um sentimento de revolta, de indignação, algo como um instinto de proteção.
No caso do museu, debatemos sobre valores, princípios, limites, ideologias, símbolos, liberdade, responsabilidade… No caso da creche, não há mais debate: só um silêncio, um choro e um grito presos na garganta. Para nos proteger deste desconforto, podemos simplesmente classificar o artista como inconsequente e o segurança como monstro. Mas o que aconteceria se nós os olhássemos como um de nós, como dois tipos de palavra – duras palavras – que colocam nosso Brasil diante do espelho?
O Brasil está nu. Tudo aquilo que durante séculos cobria nossas “vergonhas” – como diziam os antigos – caiu por terra. É verdade que nossas crianças ainda não têm estrutura suficiente para ver e entender tudo o que está acontecendo com nossa sociedade. Mas elas sofrem as consequências… Quanto a nós, estamos agindo responsavelmente como adultos ou queremos encobrir rapidamente essas “vergonhas”, tapar nossos olhos diante desta realidade? Estávamos desacostumados a olhar nossa nudez coletiva no espelho, com o risco de cobrir apressadamente este corpo social nu, sem olhar, com realismo, para suas belezas e suas feridas profundas. Esta pressa não nos daria a chance de uma cura num futuro próximo.
O Brasil está em chamas. Tomamos consciência, de modo muito duro, que a brasa que carregamos no nome do Brasil pode aquecer e cozinhar para alimentar, mas ela também pode queimar e destruir. E, mais uma vez, nossas crianças não têm estrutura suficiente para se protegerem de nossa incapacidade de manipular este fogo que carregamos em nós. Mas as crianças daquela creche também contaram com a ajuda de outros adultos: um artista – músico – que agiu como bombeiro para salvar algumas delas, e uma professora, que deu a vida para que algumas sobrevivessem. As crianças sobreviventes guardarão em sua pele uma verdade profunda: os adultos podem enlouquecer e matar, mas os adultos também podem se compadecer e salvar!
Hoje, o Brasil está de luto. É hora de chorar por nossas crianças e pela violência louca que se apossou de alguns de nós. Hoje, não desviemos nosso olhar da nudez dos crucificados – crianças! – de nossa terra: nesta sexta-feira, como naquela outra, a Salvação pode começar com um olhar fixo dirigido “Àquele que foi transpassado”. Amanhã, no silêncio de um sábado aparentemente sem sentido, talvez começaremos a entender que os crucificados do Brasil de hoje revelam, sim, a nudez de nossa crueldade coletiva. Mas, tentando ampliar nossa memória e lembrar de tudo o que aconteceu nestes últimos dias, talvez nosso coração comece a arder de modo novo, pois nossa humanidade nua e frágil não se mostrou morta e insensível: o Brasil, uma vez mais, deixou as divisões de lado e conseguiu se compadecer, chorar junto e desejar o bem para os mais frágeis. Podemos esperar, com a fé pascal que habita o coração de muitos de nós: nossa humanidade brasileira poderá se reerguer, com a graça do Senhor Vivo, num “terceiro dia”.
Se isso acontecer – e já está acontecendo – a morte sem sentido daqueles anjos não terá sido em vão. Eles esperam também e já intercedem pela ressurreição de nossa humanidade no Brasil. Que o Senhor acolha, como oferta dolorosa, as lágrimas de suas famílias e as de todos nós, e faça brotar, pouco a pouco, a Paz revolucionária do Ressuscitado em nossos corações.

 

Autor: Pe. Francys Adão, SJ

Para refletir

“Evangelizar é atrair os afastados com o nosso testemunho, é aproximar-se humildemente daqueles que se sentem longe de Deus e da Igreja.” (Papa Francisco)

Você Sabia

O papa Francisco elevou as duas igrejas que fazem parte do conjunto arquitetônico da Serra da Piedade à condição de basílicas. A Ermida da padroeira do Estado, capela do século 18 que guarda a imagem da Nossa Senhora feita por Aleijadinho, passará a se chamar Basílica Ermida da Padroeira de Minas Gerais. Já a igreja das Romarias, edificada nos anos 70 para acolher as grandes peregrinações, será chamada de Basílica Estadual Nossa Senhora da Piedade.