Do galinheiro à praça

 

Do galinheiro à praça foi sempre o caminho percorrido por Santa Dulce dos Pobres, ao escrever sua história de vida, fé e santidade – vida vivida para fazer o bem ao outro, particularmente ao pobre, ao indefeso e ao injustiçado, vítimas de sistemas e dinâmicas perversas de exploração e exclusão. Na praça, Santa Dulce sempre encontrou os pobres, os abandonados. Fez de um galinheiro o lugar primeiro da exemplaridade, do cuidado, que é selo de autenticidade da fé cristã.  Santa Dulce atravessava a praça para ir do outro lado, convencer corações em favor dos pobres. São muitas as praças pelo mundo afora, com diferentes características. Da alegria à indiferença, da liberdade à rigidez, da solidariedade à frieza dos ritos, são muitos os personagens que contracenam nas praças do mundo.  Alguns desses lugares não conseguem retratar e dar espaço à espontaneidade do povo, cerceando seu direito e sua vontade de expressar a alegria, a vibração. Outras praças se caracterizam pelos lugares marcados e protocolos que enjaulam a espontaneidade, suprimindo o marcante traço da identidade desses ambientes – a alegria. Mas há quem transforme praças e galinheiros. Não é simples mudar o sentido de um espaço que originalmente é um galinheiro. Galinheiro é sempre galinheiro. Só uma arte singular pode dar sentido novo à praça e ao galinheiro. Santa Dulce é detentora dessa arte e, ao ganhar a glória dos altares, presenteia o mundo com a força da sua exemplaridade. 

Por isso mesmo, ecoa uma forte interpelação: qual é o segredo para fazer do galinheiro uma universidade do cuidado e da praça o lugar da alegria e do encontro? Essa interrogação tem resposta, conceitualmente bem formulada. Em Santa Dulce dos Pobres, a resposta é a lição vivida e testemunhada. Sua vida burla a rigidez de ritos e normas. Por princípio, essa transgressão pode promover o distanciamento do ideal de santidade, mas não o inviabiliza, pois o amor é maior, pode tudo e tudo refaz. Consegue dar nomes novos, desconcertar o rígido, encher de alegria o ensimesmado, revigorar o fraco e plantar audácia solidária no coração. O amor quebra os grilhões das burocracias e faz balançar as convencionalidades que engessam pessoas e, não raramente, fazem apagar a esperança.

Santa Dulce sempre foi assim, ancorada na arte musical do acordeão que tocava, como bálsamo de alegria para os corações prisioneiros, na coragem da ousadia, muitas vezes entendida como desobediência; firme e delicada, era capaz de driblar posturas enrijecidas e frias.  Com leveza, sem sisudez, gerou o novo. Seu amor de Santa dos pobres aponta um caminho para a Igreja, por vezes acachapada por pesos de disputas e funcionamentos que cegam. Sua santidade mostra o caminho da salvação do mundo e da Igreja, na contramão dos que buscam o distanciamento, uma espécie de prevenção “asséptica” às proximidades. Expoentes da literatura e das artes já disseram e demonstraram que a beleza pode salvar o mundo. E Santa Dulce dos Pobres com o seu testemunho de vida comprova que a santidade entendida e vivida como afeição tem força maior para mudar mentes, vidas, corações e mundos.

A afeição da Santa brasileira, baiana, se consolida como alavanca de mudanças, com propriedades para estabelecer milhares de conexões, interligando o coração de crianças, jovens, adultos e até mesmo dos indiferentes. Mesmo quem um dia desferiu uma cusparada em seu rosto, se rende em favor dos pobres, pela força transformadora da sua afeição. Santa Dulce compartilha um segredo e ensina “o caminho das pedras” para se realizar muitos milagres. A afeição é remédio que cura os doentes, alenta os desolados, levanta os caídos, fortalece os fracos, produz a sabedoria profética com força para mudar o imutável. Quebra os grilhões de prisões que envelhecem e até esclerosam a novidade do amor de Deus. A força da afeição sustenta milagrosa e exemplarmente obras sociais, com ternura e vigor. O amor de Santa Dulce dos Pobres é lição a ser aprendida. É capaz de mudar até mesmo os que não conseguem viver amorosamente e, por isso, são incapazes de conquistar o que só o amor pode oferecer – das obras sociais às transformações no coração.

A Igreja e a sociedade devem aprender as lições oferecidas por Santa Dulce dos Pobres, para não sofrerem com desconexões e distanciamentos, com operações estéreis e de pouca credibilidade. É hora de novas dinâmicas na sociedade e na Igreja. Essa almejada novidade não é invencionice ou desconsideração dos alicerces intocáveis da fé. Trata-se de trilhar o caminho do amor, convencendo que a afeição restaura vidas, opera mudanças com maestria, atualiza linguagens, congrega pessoas, agrega parceiros, ganha os traços próprios das feições de Jesus de Nazaré, filho de Deus, Salvador do mundo, mudando vidas e corações. Transforma galinheiros em lugares especiais de cuidados. Reconfigura as praças, até aquelas de lugares marcados, normatizados por friezas e distanciamentos. É tempo de aprender os segredos da sabedoria que faz voltar aos galinheiros e convertê-los em exemplaridade, ambientes do cuidado amoroso e transformador. A partir do amor, mudar galinheiros, praças e outros lugares. É a lição de Santa Dulce dos Pobres!

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Ouvidos aos clamores

Ouvir os clamores é indispensável para combater indiferenças que configuram uma ordem social e política contrária à dignidade humana neste complexo momento da contemporaneidade. Verifica-se que há grande dificuldade para escutar clamores dos sofredores, pobres, enfermos, indefesos e idosos. Comprometida a escuta, consequentemente, estarão também prejudicados os diálogos e entendimentos. “Quem tem ouvidos, ouça”. Exercer a escuta é a recomendação pedagógica de Jesus.

Com frequência, dá-se ouvidos a muitas coisas que alimentam o mal. De maneira patológica, dedica-se atenção ao cardápio de perversidades que alimentam sentimentos destrutivos. Um sinal desse comportamento é a consideração, popularizada, de que “notícia boa é notícia ruim”. Configura-se, assim, um inconsciente coletivo que gera interesse e envolvimento com o que é cruel e tem força destrutiva sobre imagens e reputações, ainda mais quando se ancora em inverdades. Há uma crescente perda do encantamento pelo bem. E é o bem que gera o sentido necessário para o sustento da vida, a inspiração para intuições que renovam dinâmicas, permitindo encontrar caminhos e respostas novas ante as carências de toda a sociedade.

A escuta daquilo que alimenta o mal compromete uma indispensável competência humana: dar ouvidos aos clamores que brotam das diferentes formas de sofrimento. Há de se recuperar essa capacidade. Ao se dar ouvidos aos clamores dos que sofrem, nas muitas periferias – geográficas e existenciais -, ocorrem transformações profundas na interioridade humana, na espiritualidade de cada pessoa, nas sinapses cerebrais. São alimentados os muitos sentimentos que podem sustentar o sentido do viver, inspirar escolhas, qualificar processos e garantir competência assertiva no exercício de responsabilidades legislativas, judiciárias e executivas. Permite também a qualificação da insubstituível competência cidadã de ser solidário e de cultivar a compaixão. Certamente, aí está um dos remédios para curar a sociedade da violência.

A insensibilidade para se ouvir os clamores explica também o enfraquecimento de mentes, que se tornam incapacitadas para lidar com desafios mais exigentes. Por isso, há tanta impaciência e precipitações, que levam a escolhas cegas e desistências fatais ante a nobreza e o dom que é viver. Não menos suicida é a configuração de situações regidas pelas inteligências e escolhas, decisões e orientações de quem, ainda que ocupando cargos importantes, não tem a necessária sensibilidade cultivada a partir da prática espiritual e cidadã de se dar ouvido aos clamores.

Sábia é a mãe que sai à procura de oportunidades para que seus filhos exercitem, por inserções no mundo dos pobres e sofredores, a capacidade de ouvir clamores, enquanto prestam serviço abnegado e oblativo.  Assim, não se deixa assorear a fonte do sentimento de compaixão e de solidariedade, tão, e quase sempre mais importante, que a fonte luminosa da razão. Práticas religiosas, exercício de poderes em governos, relacionamentos sociais e humanitários não podem dispensar o recurso simples, mas com força educativa e terapêutica, que é ouvir os clamores.

É significativa a referência religiosa dos primeiros cinco livros da Sagrada Escritura, o Pentateuco, ao indicar rumos na busca de equilíbrio na ordem social e política do povo de Deus: indispensável é o exercício permanente de se ouvir os clamores dos pobres e sofredores. E não se trata, absolutamente, de conivência com algum tipo de configuração meramente ideológica. Trata-se de caminho em direção a Deus e para conquistar uma espiritualidade necessária na relação entre semelhantes e com o Criador de todas as coisas. Os ouvidos dados aos clamores dos sofredores e pobres permitem a arquitetura do genuíno sentido da pobreza – remédio para a doentia mesquinhez que enjaula almas e corações sob a égide da idolatria do dinheiro. O destrutivo apego aos bens leva à indiferença. Orienta posturas de quem até fala sobre os pobres, tem discursos em sua defesa, mas, mesmo com os cofres cheios, não abre mão de centavos para ajudá-los.

Ora, no coração de Deus, os pobres e sofredores ocupam lugar preferencial. Ele escuta seus clamores e deles se compadece. Sobre eles se debruça. Dedica-se à humanidade pobre, pecadora e esgarçada por se distanciar de seu amor. Sua compaixão se desdobra em gestos de salvação, no ato maior e perfeito de amor, a oferta de seu filho amado, Jesus Cristo, o Salvador. O mundo doente, homens e mulheres doentes, necessitados de fecunda terapêutica para mudar rumos e recompor cenários, podem encontrar saídas, soluções e conquistar um tempo novo. Mas, para isso, devem investir na experiência-exercício de se dar ouvido aos clamores dos pobres.

O convite é dirigido a todos, sem exceção: dar ouvido aos clamores que vêm de longe e de perto, de muitos lugares. Os resultados serão surpreendentes no coração de cada pessoa, tocado pelo bálsamo da compaixão. Será alcançado o sentido para se lutar e se fazer o bem, impulsos para novas práticas, a partir da solidariedade. É uma experiência espiritual para dar sustento ao viver, com mais sabedoria nos diferentes modos de agir no mundo. Hoje, agora, não feche os seus ouvidos. Por um novo tempo na sua vida e na qualificação de sua cidadania, de toda a sociedade, dê ouvidos aos clamores. “Quem tem ouvidos, ouça”.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Não se deve ser turista na Igreja, mas irmãos uns dos outros

Em sua catequese, Francisco alertou: uma vida marcada somente em tirar proveito das situações em detrimento dos outros provoca inevitavelmente a morte interior

Na Sala Paulo VI, o Papa Francisco acolheu fiéis e peregrinos para a Audiência Geral desta quarta-feira, 21. O Pontífice deu prosseguimento ao seu ciclo de catequeses sobre os Atos dos Apóstolos e nesta ocasião falou sobre a “comunhão integral na comunidade dos fiéis”.

A comunidade cristã nasce da efusão do Espírito Santo e cresce graças ao fermento da partilha entre os irmãos em Cristo, definiu o Santo Padre. “Trata-se de um dinamismo de solidariedade que edifica a Igreja como família de Deus, onde a experiência da koinonia é um elemento central”, frisou o Papa. Francisco explicou que koinonia é uma palavra grega, que significa colocar em comum, partilhar, comungar, refere-se, antes de tudo, à participação no Corpo e Sangue de Cristo, que se traduz na união fraterna e também na comunhão dos bens materiais.

“O sinal de que o seu coração se converteu é quando a conversão chegou ao bolso. Ou seja, ali se vê se uma pessoa é generosa com os outros, se ajuda os mais pobres: quando toca o próprio interesse. Quando a conversão chega ali, está certo de que é verdadeira”, revelou o Pontífice.

Os fiéis têm um só coração e uma só alma e não consideram propriedade própria aquilo que possuem, mas colocam tudo em comum. Por este motivo, nenhum deles passava por dificuldade. Francisco então enalteceu os muitos cristãos que fazem voluntariado, que compartilham o seu tempo com os outros.

Esta koinonia ou comunhão se configura como a nova modalidade de relação entre os discípulos do Senhor. O vínculo com Cristo instaura um vínculo entre irmãos. Ser membro do Corpo de Cristo torna os fiéis corresponsáveis uns pelos outros. Ser indiferente, não preocupar-se com os outros, não é cristão, recordou o Papa.

Como exemplo concreto de compartilha e comunhão dos bens, Francisco citou o testemunho de Barnabé: ele possui um campo e o vende para oferecer o dinheiro aos Apóstolos. Mas ao lado do seu exemplo positivo há outro tristemente negativo: Ananias e a sua mulher Safira, ao venderem o terreno, decidem entregar somente uma parte aos Apóstolos e ficar com a outra para eles. Este imbróglio interrompe a cadeia da compartilha gratuita, serena e desinteressada e as consequências são trágicas e fatais, apontou o Santo Padre.

“A hipocrisia é o pior inimigo desta comunidade cristã, deste amor cristão: fazer de conta de querer bem, mas buscar somente o próprio interesse”. Faltar com a sinceridade da compartilha, acrescentou o Papa, significa cultivar a hipocrisia, afastar-se da verdade, se tornar egoísta, apagar o fogo da comunhão e destinar-se ao gelo da morte interior.

“Quem se comporta assim transita na Igreja como um turista, há tantos turistas na Igreja que estão sempre de passagem, jamais entram na Igreja: é o turismo espiritual que faz com que pensem ser cristãos, mas são somente turistas de catacumbas. Não devemos ser turistas na Igreja, mas irmãos uns dos outros”. Uma vida marcada somente em tirar proveito e vantagem das situações em detrimento dos outros provoca inevitavelmente a morte interior. O Pontífice então concluiu:

“Que o Senhor derrame sobre nós o seu Espírito de ternura, que vence toda hipocrisia e coloca em circulação aquela verdade que nutre a solidariedade cristã, a qual, longe de ser atividade de assistência social, é uma expressão irrenunciável da natureza da Igreja que, como mãe cheia ternura, cuida de todos os filhos, especialmente dos mais pobres.”

Mãos sempre estendidas para ajudar o outro

O Papa Francisco retoma as tradicionais Audiências Gerais das quartas-feiras. Neste dia 7 de agosto, na Sala Paulo VI e devido ao calor forte do verão italiano, os fiéis puderam acompanhar a catequese do Pontífice sobre os Atos dos Apóstolos.

“Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda” (At 3,3-6): a cura de um paralítico de nascença que agora caminha, anda e louva a Deus. O Papa Francisco refletiu sobre a primeira narração de cura do Livro dos Apóstolos e enalteceu a ação concreta dos Apóstolos Pedro e João que testemunharam a verdade do anúncio do Evangelho, demonstrando como agem em nome de Cristo.

A “relação” com o outro que acontece no amor

Francisco recordou que a lei da época impedia de oferecer sacrifícios a quem tinha algum tipo de deficiência física, em consequência de alguma culpa, e inclusive impedia o acesso ao Templo em Jerusalém. Mas, como narra o Evangelho, o paralítico, “paradigma de tantos exclusos e descartados da sociedade, estava ali para pedir a esmola de todos os dias”, quando os Apóstolos trocaram olhares com ele e Pedro disse: “Não tenho prata, nem ouro, mas o que tenho, isso te dou. Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda” (At 3,3-6).

Essa foi a relação estabelecida entre o paralítico e os Apóstolos, o mesmo modo em que Deus ama se manifestar, ressaltou Francisco, “na relação”, sempre no diálogo, com a inspiração do coração, através de um encontro real entre as pessoas que pode acontecer só no amor.

Igreja pobre para os pobres

Ao tratar do Templo, onde na frente se encontrava o paralítico, o Papa explicou que, além de ser um centro religioso, era um lugar de trocas comerciais. E por essa dimensão do espaço, Jesus tinha se manifestado contrário várias vezes.

“Mas quantas vezes eu penso a isso quando vejo alguma Paróquia onde se pensa que é mais importante o dinheiro que os sacramentos! Por favor! Igreja pobre: peçamos ao Senhor isso”.

A Igreja que não fecha os olhos, mas abre o olhar

Aquele mendigo paralítico, encontrando os Apóstolos, não encontrou aquele dinheiro, mas “o Nome que salva o homem: Jesus Cristo, o Nazareno”. Pedro invocou o seu nome e ordenou o paralítico a se levantar e andar, tocou no doente e o ajudou a ficar em pé.

“E aqui aparece o retrato da Igreja, que vê quem está em dificuldade, não fecha os olhos, sabe olhar a humanidade no rosto para criar relações significativas, pontes de amizade e de solidariedade no lugar de barreiras. Aparece o rosto de ‘uma Igreja sem fronteiras que se sente mãe de todos’ (Evangelii gaudium, 210), que sabe pegar na mão e acompanhar para se levantar – não para condenar. Jesus sempre pega a mão, sempre procura levantar, fazendo com que as pessoas se curem, que sejam felizes, que encontrem Deus”.

O Papa descreveu essa atitude como “a arte do acompanhamento”, que se caracteriza pela delicadeza com o próximo, dando sinais de proximidade, como a troca respeitosa e cheia de compaixão de olhares.

“E isso fazem os dois Apóstolos com o paralítico: olham ele, dizem ‘olhem para nós’, seguram a sua mão, o fazem se levantar e o curam. Assim faz Jesus com todos nós. Pensemos nisso quando estivermos em momentos ruins, em momentos de pecado, em momentos de tristeza. Aí está Jesus que diz: ‘Olhe para mim: eu estou aqui!’. Vamos pegar na mão de Jesus e deixar que nos levante”.

Estender a mão ao outro: sempre!

Os Apóstolos Pedro e João nos ensinaram a confiar na “verdadeira riqueza que é a relação com Jesus”, afirmou o Papa. Uma tarefa que também cabe a nós, acrescentou o Pontífice, ao finalizar a catequese de hoje:

“E nós, cada um de nós, o que temos? Qual é a nossa riqueza, o nosso tesouro? Com que coisa podemos tornar ricos os outros? Peçamos ao Pai o dom de uma memória agradecida ao recordar os benefícios do seu amor na nossa, para dar a todos o testemunho de louvor e reconhecimento. Não esqueçamos: sempre a mão estendida para ajudar o outro a se erguer; é a mão de Jesus que, através da nossa mão, ajuda os outros a se levantar”.

Confira uma versão resumida da Catequese:

O livro dos Atos dos Apóstolos mostra como o anúncio do Evangelho é confirmado pelos milagres e sinais que o acompanham. O primeiro deles é a cura dum paralítico de nascença que, todos os dias, era colocado à porta do Templo de Jerusalém para pedir esmola. Um dia, pelas três da tarde, Pedro e João sobem ao Templo e seus olhos cruzam-se com o olhar daquele mendicante que pede uma esmola. Os apóstolos acolhem aquele olhar, aceitam um encontro real com aquele homem enfermo, ativam uma relação: “Dinheiro, não temos! Mas damos-te o que temos: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!” E ele de um salto, pôs-se de pé e começou a andar”.

Encontrando os Apóstolos, o mendicante não encontra dinheiro, mas o Nome que salva: Jesus Cristo Nazareno. Pedro e João ensinam-nos a confiar, não nos meios materiais – sem dúvida, necessários –, mas na verdadeira riqueza que é a relação com Jesus ressuscitado. De facto, como dirá o apóstolo Paulo, “somos tidos (…) por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo” (2 Cor 6, 10). O nosso tudo é o Evangelho, que manifesta o poder do nome de Jesus que realiza prodígios. Prova disto é o paralítico curado: agora caminha, salta e louva a Deus. Pode viver celebrando o Amor de Deus que o criou para a vida e a alegria.

 

Arquidiocese de Belo Horizonte

Atraídos pela oração de Jesus

Uma maneira de rezar diferente para a época, a ponto de suscitar nos discípulos o desejo de serem “partícipes desses momentos de união com Deus, para saborear plenamente sua doçura”. Esse “diálogo entre pessoas que se amam”, é a “novidade da oração cristã”. “Um diálogo de Filho ao Pai, um diálogo entre filhos e Pai. Esta é a oração cristã.”

Antes de rezar o Angelus com os fiéis provenientes de diversas partes do mundo reunidos na Praça São Pedro, neste XVII Domingo do Tempo Comum, o Papa Francisco refletiu sobre a passagem de São Lucas que narra as circunstâncias em que Jesus ensina o “Pai-nosso” aos seus discípulos, destacando também que Jesus nos encoraja a sermos insistentes na oração.

Atraídos pela “qualidade” da oração de Jesus

Os discípulos – explica o Papa – sabiam rezar segundo as fórmulas da tradição judaica da época, “mas também desejam poder viver a mesma “qualidade” da oração de Jesus”.

“Podem constatar que a oração é uma dimensão essencial na vida de seu Mestre. Na verdade cada sua ação importante é caracterizada por prolongados momentos de oração.”

Ademais, os discípulos percebem que a oração de Jesus, revela “uma ligação íntima com o Pai, tanto que desejam ser partícipes desses momentos de união com Deus, para saborear plenamente sua doçura”.

Aproveitando que estavam em um lugar isolado, esperam Jesus concluir sua oração e, tomados por esta curiosidade, pedem a Ele que lhes ensine a rezar.

Fazer a experiência da paternidade de Deus na oração

Em resposta, “Jesus não dá uma definição abstrata da oração, nem ensina uma técnica eficaz para rezar e “obter” alguma coisa”, mas convida seus seguidores a fazerem a experiência de oração, colocando-os diretamente em comunicação com o Pai, despertando neles um anseio por um relacionamento pessoal com Deus, com o Pai”:

“Aqui está a novidade da oração cristã! Ela é o diálogo entre pessoas que se amam, um diálogo baseado na confiança, apoiado pela escuta e aberto ao compromisso solidário.”

Neste sentido, dá a eles a oração do “Pai Nosso”, “talvez o dom mais precioso que nos foi deixado pelo divino Mestre em sua missão terrena.”

Depois de nos ter revelado o seu mistério de Filho e irmão, com aquela oração Jesus nos faz mergulhar na paternidade de Deus, “e isto quero sublinhar”, disse Francisco:

“ Quando Jesus nos ensina o Pai Nosso, nos faz entrar na paternidade de Deus e nos indica o modo para entrar em um diálogo orante e direto com Ele, através do caminho da confiança filial. É um diálogo entre o pai e o seu filho, o filho com o pai.”

“O que pedimos no “Pai Nosso” já está realizado em nós no Filho Unigênito: a santificação do Nome, o advento do Reino, o dom do pão, do perdão e da libertação do mal. Enquanto pedimos, abrimos a mão para receber. Receber os dons que o Pai nos mostrou no filho. A oração que o Senhor nos ensinou é a síntese de toda oração, e nós a dirigimos ao Pai sempre em comunhão com os irmãos.”

Às vezes – observou Francisco – “acontece que na oração existem distrações, mas tantas vezes sentimos como que o desejo de nos deter na primeira palavra: “Pai”, e sentir esta paternidade no coração”.

Atrair o olhar do pai: fazer como quando éramos crianças

Depois de falar da intimidade com Deus na oração revelada por Jesus, o Papa Francisco sublinhou outro aspecto que a oração cristã deve ter: ser perseverante. Para ilustrar, cita a parábola do amigo inoportuno e recorda o que Jesus diz: “É preciso insistir na oração”. E retoma um exemplo já referido em outras ocasiões, das crianças quando se dirigem ao pai:

“E me vem em mente o que fazem as crianças com três, três anos e meio, que começam a perguntar as coisas que não entendem. Na minha terra é chamada de “a idade dos porquês”, acredito que aqui seja o mesmo. As crianças começam a olhar para o pai e dizer: “Pai, por quê? Pai, por quê?” Pedem explicações. Mas estejamos atentos: quando o pai começa a explicar o porquê, elas vem com outra pergunta sem escutar toda a explicação. O que acontece? Acontece que as crianças se sentem inseguras a respeito de muitas coisas que começam a entender pela metade. E somente querem atrair sobre si o olhar do pai, e por isso: ‘Por que, por que, por que?’”

“Nós, no Pai Nosso, se nos detivermos na primeira palavra, faremos o mesmo de quando éramos crianças, atrair sobre nós o olhar do pai. Digamos: “Pai, Pai”, e também dizer: “Por que?” E Ele olhará para nós.”

“Peçamos a Maria, mulher orante, que nos ajude a rezar o Pai Nosso, unidos a Jesus para viver o Evangelho, guiados pelo Espírito Santo”, foi o pedido do Santo Padre ao concluir sua alocução, antes de rezar o Angelus com os presentes.

 

Arquidiocese Belo Horizonte

Migalhas da mesa

Há uma lógica perversa que rege o mundo, com suas dinâmicas e relacionamentos, produzindo para a maioria dos seres humanos uma realidade hostil, marcada pela exclusão social, por todo tipo de discriminação e pela corrupção – frutos da mesquinhez doentia em que a lógica hegemônica do dinheiro tudo preside. Essa insana supremacia adoece indivíduos e, por consequência, a sociedade. A todos mantém reféns de procedimentos e silogismos revestidos da falsa roupagem de um suposto bem e do desenvolvimento, revelando a voracidade de tudo o que representa o mal. A inadiável mudança de rumos é desafio exigente, mas possível de ser superado: na lógica do amor encontra-se a força necessária para redirecionar o mundo. Incontestáveis são os sinais de que as configurações da lógica do amor operam o bem, fortalecem a justiça e conquistam a paz. Lição a ser aprendida e vivida.

Interpelante é a passagem do Evangelho de Lucas: “Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e dava festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, ficava sentado no chão junto à porta do rico. Queria matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico, mas, em vez disso, os cães vinham lamber suas feridas.” As “migalhas que caem da mesa” são a comprovação do predomínio da lógica perversa, emoldurada pela arquitetura de promessas enganosas, fundamentadas até mesmo em decisões de instâncias com credibilidade para convencer que é bom, justo e necessário “viver de migalhas”.

A força perversa de se “viver de migalhas” configura o abominável status de considerar normal a discrepante distribuição de bens entre grupos da sociedade, o que só contribui para agravar o inadmissível e crescente abismo entre os que têm demais e os que vivem na miséria. Assim, o tecido da sociedade brasileira é contaminado por uma poluição moral e desumanizante que deve ser contestada: as riquezas culturais, tradições, história e religiosidade, particularmente a realidade socioambiental dadivosa desta nação, bens da criação de um povo, jamais devem servir para atender a interesses de famílias e de grupos, perpetuando a lógica perversa de se sobreviver com as “migalhas da mesa”.

Vive-se um verdadeiro desastre humanitário e ecológico que indica a perversidade também no tratamento do meio ambiente. É vergonhoso saber de propagandas e apresentação de metodologias de exploração do meio ambiente, com contrapartidas que tentam justificar o injustificável, e força para convencer quem vive das “migalhas da mesa”. Mas, sabe-se que no reverso das ofertas de vantagens sociais está oculto o lucro exorbitante, enquanto são alardeadas as poucas vantagens para o “bem de todos”. A fragilidade desse discurso sobressai ante à situação das contas públicas e da falta de condições desse Estado diamante para cuidar adequadamente de sua gente. Ao contrário da realidade atual, em que o meio ambiente é explorado vorazmente, esse Estado diamante, com sua história tricentenária, seria um jardim.

Entristece a constatação de que expedientes arcaicos e manipuladores, cinzentos, obscurecem mentes e acovardam os que estão, por dever de ofício, em linhas de frente. E até mesmo aqueles que deveriam ser estandartes de lucidez na correção de rumos estejam envolvidos por práticas de cooptação. O tratamento do meio ambiente, que reúne todos os bens da criação, não pode ter como ponto de partida a lógica do dinheiro. Sublinhadas as riquezas muitas que o constituem, não se justifica o conjunto maior da sociedade vivendo das “migalhas que caem da mesa”. Mas a sedutora força do dinheiro é avassaladora. Impede enxergar que a extração das riquezas naturais gera lucro e também prejuízos: compromete lençóis freáticos num tempo em que se anuncia a escassez de água, um veredito assombroso; provoca intoxicações, adoecendo e matando de modo similar a guerras, sem contar as criminosas tragédias que ceifam vidas. Prejuízos irreversíveis que não se pagam com pífios milhões tirados de avolumados bilhões, para resfriar o infernal aquecimento de consciências.

Em lugar de propagandas que convencem por sua articulada e ardilosa arquitetura, dos acordos que merecem revisões e ajustamentos de condutas, por não serem dogmas, mas estreitamentos de interpretações e juízos, é preciso uma aprendizagem civilizada do que é a ecologia integral. Contudo, superar essa lógica perversa de se viver e agradar com “migalhas que caem da mesa” exige humildade. Não a própria daquele que é o pai da mentira e do orgulho, mas a verdadeira humildade que convida todos a se assentarem na sala comum para refletir e partilhar ideias sobre as condições de vida e da sobrevivência de uma sociedade, com a honestidade de se avaliar modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Não sendo assim, com a sedução de ilusório desenvolvimento, o lado perverso de enriquecer poucos e manter satisfeitos a grande maioria “com migalhas” avoluma-se, impondo a autodestruição e o massacre na sociedade. O peso é sempre maior para os mais pobres, mas as consequências nefastas, cedo ou tarde, chegarão àqueles que amealharam riquezas, construindo muros mais altos, por terem mais, ao invés de aumentarem as suas mesas para a partilha.

Não se pode permitir que o dinheiro tenha tanto poder de sedução, a ponto de comprometer os ecossistemas e o uso sustentável dos bens da criação, depredando a capacidade regenerativa da natureza nos seus diversos setores e aspectos. Por isso mesmo, é necessária uma ecologia econômica, que leve a sério a proteção do meio ambiente como parte integrante do desenvolvimento. Não basta dizer que a depredação em sítios, a exemplo da Serra da Piedade, é responsabilidade de outros. É imprescindível incluir nesse processo a qualidade de metodologias colocadas sobre a mesa para que, em lugar de “migalhas”, caiam verdades e entendimentos honestos. Somente assim pode-se comprovar a intenção de não agredir e ferir o território sagrado do Santuário da Padroeira de Minas, com claro desrespeito e prejuízo para o coração deste Estado, por comprovada ganância.

O direito de serventia, de um tempo em que o Direito era outro, não isenta de se fazer o que é considerado justo e correto agora. Não se pode aceitar que interesses próprios se sobreponham a outros muito mais importantes, nesta história protagonizada pelos exploradores atuais. Respeitar o território sagrado e não depredar o meio ambiente, como está ocorrendo na Serra da Piedade, é o mínimo que se espera da lucidez judiciária e da postura ética-cidadã. Para que seja verídico o argumento de que se está apenas recuperando um vergonhoso passivo ambiental, é preciso que se prove isto, judicial e empresarialmente, e em sinal de respeito sair imediatamente do território sagrado. O Estado diamante não merece celebrar o ano jubilar de 60 anos da proclamação de Nossa Senhora da Piedade, Padroeira de Minas, no dia 31 de julho 2020, num Santuário de 252 anos de peregrinações na fé, com 220 carretas transitando diariamente em mais de 400 viagens, o que degrada o território pertencente ao povo. É o primeiro sinal das muitas e necessárias atitudes que poderão alicerçar uma ecologia integral, sob pena de se viver, todos, sem exceção, das “migalhas que caem da mesa”.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Contemplação e ação

Na alocução que precedeu a oração, o Pontífice destacou a passagem do Evangelho deste domingo, em que o evangelista Lucas narra a visita de Jesus à casa de Marta e Maria, irmãs de Lázaro.

“Elas o acolhem, e Maria senta-se aos seus pés para ouvi-lo. Deixa o que estava fazendo para estar próxima a Jesus: não quer perder nenhuma de suas palavras”, disse Francisco, acrescentando:

“Tudo deve ser deixado de lado porque, quando Ele vem nos visitar em nossas vidas, a sua presença e a sua palavra vêm antes de qualquer coisa. O Senhor sempre nos surpreende: quando nos dispomos a ouvi-lo realmente, as nuvens desaparecem, as dúvidas cedem o lugar para a verdade, o medo para a serenidade, e as várias situações da vida encontram o lugar certo. O Senhor, sempre quando vem, ajusta as coisas e também cada um de nós.”

Não se deixe levar pelos afazeres

Na cena de Maria de Betânia aos pés de Jesus, São Lucas mostra a atitude de oração do fiel que sabe estar na presença do Mestre para ouvi-lo e entrar em sintonia com Ele.

“Trata-se de fazer uma pausa durante o dia, de recolher-se no silêncio para dar lugar ao Senhor que “passa” e encontrar a coragem de permanecer um pouco “à parte” com Ele, para depois retornar, com mais serenidade e eficácia, para as coisas cotidianas. Louvando a atitude de Maria, que “escolheu a melhor parte”, Jesus parece repetir a cada um de nós: “Não se deixe levar pelos afazeres, mas antes de tudo escute a voz do Senhor, a fim de desempenhar bem as tarefas que a vida lhe atribui”.

“Depois, há a outra irmã, Marta. São Lucas diz que foi ela quem hospedou Jesus”, ressaltou o Papa.

“Talvez Marta fosse a mais velha das duas irmãs, não sabemos, mas certamente essa mulher tinha o carisma da hospitalidade. De fato, enquanto Maria está ouvindo Jesus, ela está completamente absorvida pelos muitos serviços. Por isso, Jesus lhe diz: “Marta, Marta, você se preocupa e anda agitada com muitas coisas”. Com estas palavras, Ele certamente não pretende condenar a atitude do serviço, mas sim a preocupação com a qual às vezes se vive.”

Acolhimento e fraternidade

Segundo o Pontífice, “nós também partilhamos a preocupação de Santa Marta e, com o seu exemplo, nos propomos a fazer com que, em nossas famílias e em nossas comunidades, se viva o sentido do acolhimento, da fraternidade, para que cada um possa se sentir “em casa”, especialmente os pequenos e os pobres quando batem à porta.

“Portanto, o Evangelho de hoje nos recorda que a sabedoria do coração está em saber conjugar esses dois elementos: a contemplação e a ação.”

“Marta e Maria nos indicam o caminho. Se queremos desfrutar a vida com alegria, devemos associar essas duas atitudes: por um lado, o “estar aos pés” de Jesus, para ouvi-lo enquanto nos revela o segredo de todas as coisas; por outro, estar atentos e prontos para a hospitalidade, quando Ele passar e bater à nossa porta, com o rosto de um amigo que precisa de um momento de descanso e fraternidade.”

Francisco concluiu, pedindo à Virgem Maria, “Mãe da Igreja, para que nos conceda a graça de amar e servir a Deus e aos irmãos com as mãos de Marta e o coração de Maria, a fim de que permanecendo sempre na escuta de Cristo, possamos ser artesãos da paz e da esperança”.

A linguagem da verdade e do amor é universal

Cinquenta dias depois da Páscoa, os Apóstolos, reunidos em oração no Cenáculo de Jerusalém, vivenciam uma experiência muito além de suas expectativas: experimentam a irrupção de Deus. De repente veio do céu um ruído como de um vento forte como um sopro primordial; apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ao vento somou-se então o fogo, que na tradição bíblica, acompanha a manifestação de Deus. É a expressão simbólica de sua obra de aquecer, iluminar e tocar os corações e seu cuidado com as obras humanas.

Amor, sinceridade, verdade, gestos: linguagem universal

A palavra dos Apóstolos fica impregnada do Espírito do Ressuscitado e se torna uma palavra nova e diferente, mas que pode ser compreendida como se fosse traduzida simultaneamente em todas as línguas: de fato, cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua.

“Trata-se da linguagem da verdade e do amor, que é universal: mesmo os analfabetos podem compreendê-la. Todos entendem a linguagem da verdade e do amor. Se você usar a verdade, a sinceridade e o amor, todos entendem, até um gesto amoroso.”

O Papa explicou claramente este fenômeno: “o Espírito Santo não se manifesta apenas mediante uma sinfonia de sons que une e compõe harmonicamente as diversidades, mas é também o maestro de uma orquestra que executa partituras das grandes obras de Deus. O Espírito Santo é o artífice da comunhão, o artista da reconciliação que sabe remover as barreiras entre judeus e gregos, escravos e libertos, e fazer deles um único corpo”.

Todos ficam tão maravilhados que se pensa que estejam embriagados

“Então Pedro intervém em nome de todos os Apóstolos, definindo o ocorrido como a ‘sóbria embriaguez do Espírito’, que acende no povo a profecia com sonhos e visões. E este é um dom de todos os que invocam o nome do Senhor”, assegurou o Papa.

A palavra de Pedro, frágil e capaz até de renegar o Senhor, quando fica permeada pelo fogo do Espírito ganha força, torna-se capaz de tocar os corações e movê-los à conversão. A Aliança nova e definitiva está fundada, já não sobre uma lei escrita em tábuas de pedra, mas na ação do Espírito de Deus.

“O Espírito opera a atração divina: Deus nos seduz com seu Amor e assim nos envolve, para mover a história e iniciar processos através dos quais filtra a vida nova. Só o Espírito de Deus tem o poder de humanizar e confraternizar cada contexto, a partir de quem o recebe. Peçamos ao Senhor que nos faça experimentar um novo Pentecostes, que abra os nossos corações e sintonize os nossos sentimentos com os de Cristo, para que possamos anunciar sem vergonha a sua palavra transformadora e testemunhar a força do amor que chama à vida tudo o que encontra”.

Deus vai ao encontro das pessoas e deseja fazer comunhão

Deus é comunhão. O Deus que Jesus revelou é uma comunhão de amor. O Pai ama o Filho, e o Filho ama o Pai no Espírito Santo que os une pelo amor. Jesus é o Filho de Deus, gerado e não criado. Ele se coloca a serviço do Pai e recebe a força do espírito Santo. O espírito anima, dá vida a toda a criação do Pai e leva as pessoas a terem fé em Jesus. A Trindade toda sai de si para a salvação do ser humano.

O Ser humano é chamado a crer no Deus Trindade. Assim, uma das tarefas da formação cristã é trabalhar e possibilitar o conhecimento da fé que introduz a pessoa na compreensão e experiência do mistério do Deus revelado por Jesus Cristo, da Sagrada Escritura, da Igreja e da Sagrada Tradição. Podemos dizer que a “porta da fé” está sempre aberta para nós. Em Cristo descobrimos que Deus é amor (1Jo 4,8), mas amor ressuscitado. Deus é o ressuscitador que realiza a nova criação. Está sempre presente em nossa vida. É o Deus da ressurreição, aquele que, a partir de Cristo ressuscitado, abre caminho ao nosso futuro último. Mais do que dentro ou sobre nós, Deus está diante de nós e vai construindo a esperança à qual somos chamados a recuperar para cada um nós da melhor forma possível: “enraizando a nossa vida em Cristo ressuscitado”.

Quais as reais possibilidades de acesso à fé? Que itinerário irá seguir?

A Fé é dom de Deus que nos é dada na liberdade de cada um. Ela não se transmite mais culturamente. Necessário se faz que cada um e cada uma desejem entrar pela porta da fé e percorrer itinerários pessoais que abram possibilidades de vivenciá-la.

A fé cristã tem sua centralidade na pessoa de Jesus Cristo. Ela inicia-se e completa-se em Jesus Cristo (Hb 12,2), mas antes existe um discreto e silencioso itinerário aberto a todos os homens e as mulheres da terra. Conforme nos diz a Sagrada Escritura, na Primeira Carta de Pedro, “Sem terdes visto o Senhor, vós o amais. Sem que agora o estejais vendo, credes nele. Isto será para vós fonte de alegria indescritível e gloriosa, pois obtereis aquilo que desejais: a vossa salvação” (1Pd 1, 8-9). A salvação é a meta da nossa fé. Então podemos dizer, num sentido mais próprio, que não é possível conceber a vida humana sem fé.

Quando falamos em “fé” precisamos ir além do conceito que encontramos em nossos catecismos; ir além do Credo que professamos; a fé significa um ato de confiança elementar, constitutivo da nossa vida, pois desde o nascimento nós necessitamos dessa confiança. Ao nascer, a criança já identifica sua mãe, nela confia e se entrega, se aconchega. Fé é acreditar, confiar em alguém. É confiar na vida e isto supõe transpor limiar, ir além do fundamental, passar do medo da existência à confiança da vida. Mas ninguém passa sozinho. Sempre estamos a precisar de alguém que nos ajude a fazer a passagem. Sempre haverá um alguém antes de nós para ajudar-nos a afazê-la. Somos seres de confiança, embora necessitemos que alguém nos acompanhe e provoquem em nós o primeiro passo da fé. Desde o nascimento à fé.

Sabemos que percorrer esse caminho não é fácil. Mas ninguém irá fazer o itinerário no meu lugar. Dizemos ser esta fé elementar uma fé antropológica, uma fé que crê no valor da vida humana. É aquela fé comum a muitos homens e mulheres que encontramos no caminho da existência. Trata-se da confiança fundamental na vida que é provocada por Jesus, por sua presença, por aquilo que ele realiza, por sua bondade e sua proximidade. Essa fé é caminho para se chegar ao agir de Jesus. Ele é o caminho que possibilita o encontro pessoal com Deus.

Neuza Silveira de Souza
Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte

A salvação é dom gratuito

O Papa Francisco iniciou nesta semana, um novo ciclo de catequeses sobre o Livro dos Atos dos Apóstolos. O tema da Audiência Geral de hoje foi extraído do primeiro capítulo do livro, dos versículos dois e três: “Mostrou-se a eles vivo e ordenou-lhes de esperar o cumprimento da promessa do Pai”.

“Esse livro bíblico, escrito por São Lucas Evangelista, nos fala da viagem do Evangelho no mundo e nos mostra a ligação maravilhosa entre a Palavra de Deus e o Espírito Santo que inaugura o tempo da evangelização. Os protagonistas dos Atos dos Apóstolos são ‘um casal’ vivo e eficaz: A Palavra e o Espírito”, frisou o Pontífice.

A Palavra e o Espírito

Francisco explicou que a Palavra de Deus corre, é dinâmica e irriga todo terreno sobre o qual ela cai. Mas qual a sua força?, interrogou. Segundo ele, o evangelista São Lucas afirma que a palavra humana se torna eficaz não graças à retórica, que é a arte do belo discurso, mas graças ao Espírito Santo, que é a dinâmica, a força. “[O Espírito Santo] tem o poder de purificar a palavra, torná-la portadora de vida”, sublinhou.

Ele lembrou que na Bíblia há muitas histórias (palavras humanas), mas a diferença entre ela e um livro de histórias existe porque as palavras da Bíblia são tomadas pelo Espírito Santo, que dá uma força diferente e faz desta palavra uma semente de santidade.

“Quando o Espírito visita a palavra humana, ela se torna dinâmica, como ‘dinamite’, capaz de iluminar os corações e anular esquemas, resistências e muros de divisão, abrindo novos caminhos e expandindo os confins do povo de Deus”, enfatizou.

De acordo com o Papa, o Espírito Santo dá a sonoridade vibrante e eficiência à palavra humana que é frágil, capaz até de mentir e fugir das próprias responsabilidades. Este Espírito Santo, lembra o Santo Padre, é o mesmo pelo qual o Filho de Deus foi gerado: “[É] o Espírito que o ungiu e o sustentou na missão, o Espírito graças ao qual escolheu os seus apóstolos e garantiu ao seu anúncio a perseverança e a fecundidade, e que garante também hoje o nosso anúncio”.
Assista a Catequese na íntegra

A promessa do Pai

Francisco destacou que o Evangelho se conclui com a ressurreição e ascensão de Jesus, e a trama narrativa dos Atos dos Apóstolos parte da superabundância da vida do Ressuscitado derramada sobre a Igreja. Segundo o Pontífice, São Lucas afirma que Jesus, mesmo após a sua paixão, se mostrou vivo aos apóstolos durante quarenta dias e falou-lhes do Reino de Deus.

“Cristo ressuscitado cumpre gestos humanos, como o de partilhar a refeição com os seus discípulos, e os convida a viver com confiança a espera da realização da promessa do Pai. Qual é a promessa do Pai?‘Vocês serão batizados com o Espírito Santo’. O batismo no Espírito Santo é a experiência que nos ajuda a entrar numa comunhão pessoal com Deus e participar de seu desejo universal de salvação, adquirindo o dom de parresia, a coragem, ou seja, a capacidade de pronunciar uma palavra ‘como filhos de Deus’, não somente como pessoas, mas como filhos de Deus: uma límpida, livre, eficaz, cheia de amor por Cristo e pelos irmãos”, comentou.

De acordo com o Papa, não é preciso lutar para ganhar ou merecer o dom de Deus, tudo é dado gratuitamente e no seu tempo. “O Senhor doa tudo gratuitamente. A salvação não se compra, não se paga. É dom gratuito”, frisou.

O Santo Padre relembrou a resposta de Jesus aos discípulos que estavam ansiosos para conhecer antecipadamente o tempo em que os eventos anunciados aconteceriam: ‘Não cabe a vocês saber os tempos e as datas que o Pai reservou à sua própria autoridade. Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os extremos da terra’.

“Cristo ressuscitado convida os seus discípulos a não viverem o presente com ansiedade, mas a fazer uma aliança com o tempo, saber esperar o desenrolar de uma história sagrada que não foi interrompida, mas que avança, a saber esperar os ‘passos’ de Deus, Senhor do tempo e do espaço”, apontou.
Dinamizar o coração

Francisco disse ainda que o Senhor ressuscitado convida os seus a não ‘fabricar’ a missão por si mesmo, mas esperar que o Pai dinamize os seus corações com o seu Espírito, a fim de que possam dar um testemunho missionário capaz de irradiar-se de Jerusalém à Samaria e ir além das fronteiras de Israel a fim de chegar às periferias do mundo.

“Os apóstolos viveram juntos essa expectativa, como família do Senhor, no Cenáculo, cujas paredes ainda são testemunhas do dom com que Jesus se entregou aos seus discípulos na Eucaristia”, comentou o Papa, que continuou: “Como esperam a força, a dýnamis de Deus? Rezando com perseverança. Rezando na unidade e com perseverança. É com a oração que se vence a solidão, a tentação, a desconfiança e se abre o coração para a comunhão. A presença das mulheres e de Maria, mãe de Jesus, intensifica esta experiência: elas foram as primeiras a aprender do Mestre a testemunhar a fidelidade do amor e a força da comunhão que vence todo medo”.

O Santo Padre concluiu a catequese pedindo a Deus para que conceda a homens e mulheres a paciência de esperar os Seus passos, de não ‘fabricar’ a Sua obra e permanecer dóceis, rezando, invocando o Espírito e cultivando a arte da comunhão eclesial.