Ato Penitencial: acolher a solidariedade de Deus

No tempo da quaresma a Igreja incentiva os fiéis a procurarem o sacramento da reconciliação (confissão). É um mandamento da Igreja e uma boa recomendação! O Apóstolo Paulo exorta os fiéis a se deixarem reconciliar com Deus (cf. 2Cor 5,20). Contudo, a reconciliação é um processo que deve supor o reconhecimento da própria condição pecadora, da própria fragilidade. O ser humano é suscetível ao pecado. Fora ou dentro do tempo da Quaresma existe um rito que sempre nos recorda isso: o ato penitencial. Mas no tempo quaresmal esse rito ganha especial relevo, pois a revisão da vocação batismal inclui, por certo, a dimensão penitencial da vida cristã.

Antes do Concílio, não existia o ato penitencial na missa. Existiam as chamadas “apologias” ao pé do altar, proferidas pelo presidente da celebração. Numa ou noutra comunidade, os fiéis, mais por costume adquirido do que seguindo uma prescrição ritual, acompanhavam o momento cantando seus cantos penitenciais. No atual rito, essas apologias foram desmembradas, reformuladas e adaptadas ao contexto celebrativo e comunitário. O esquema foi simplificado, mas ganhou maior consistência, pois valorizou-se os elementos que, na forma antiga, estavam sobrepostos e confusos. Eram também restringidos à pessoa do ministro ordenado. Agora, porém, está integrado ao ordo, isto é, ao rito da Igreja que inclui todo o povo de Deus e não apenas os padres.

A estrutura geral inicia-se pelo convite do presidente, seguida do breve silêncio, a fórmula de confissão e a conclusão, chamada impropriamente de “absolvição”1 . As fórmulas de confissão variam. Os dois primeiros modos são fixos, o terceiro modo oferece um texto tripartido em tropos2 . Esses tropos elogiam a misericórdia de Deus e desenvolvem a aclamação Kyrie eleison, que em português foram traduzidas por “Senhor, tende piedade”3 . Os tropos, a partir do ambiente musical aprofundam o sentido dessa piedade, ampliando por meio de versos poéticos aquilo que a brevidade da forma participial contém.

Uma confissão de fraqueza

Uma rainha, chamada Ester, com uma nobre missão de salvar o seu povo e “temendo o perigo de morte que se aproximava”, dirige a Deus uma súplica:

“Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó, tu és bendito. Vem em meu socorro, pois estou só e não tenho outro defensor fora de ti, Senhor, pois eu mesma me expus ao perigo.  Senhor, eu ouvi, dos livros de meus antepassados, que tu libertas Senhor, até o fim, todos os que te são caros. Agora, pois, ajuda-me, a mim que estou sozinha e não tenho mais ninguém senão a ti, Senhor meu Deus.Vem, pois, em auxílio de minha orfandade. Põe em meus lábios um discurso atraente, quando eu estiver diante do leão, e muda o seu coração para que odeie aquele que nos ataca, para que este pereça com todos os seus cúmplices. E livra-nos da mão de nossos inimigos. Transforma nosso luto em alegria e nossas dores em bem-estar”.

Três elementos podem ser deduzidos da oração de Ester: 1- a rainha recorre a Deus, seu único defensor, a quem reconhece e recorda como protetor do seu povo; 2- tem aguda consciência de que se expôs ao perigo, a si e aos seus; 3- pede a Deus que transforme a situação de extrema dificuldade em situação de vida.

O reconhecimento da fraqueza é acompanhado do reconhecimento da foça e da exclusividade de Deus como o único capaz de transformar sua situação de miséria.

Deus é compassivo

O Antigo Testamento demonstra a imagem de um Deus severo e punitivo que pouco a pouco evolui para a imagem de um Deus paciente e compassivo. A oração de Moisés acena esse movimento:

Iahweh! Iahweh…
Deus de ternura e de piedade,
lento para a cólera,
rico em graça e fidelidade;
que guarda sua graça a milhares,
tolera a falta, a transgressão e o pecado,
mas a ninguém deixa impune
e castiga a falta dos pais nos filhos
e nos filhos dos seus filhos,
até a terceira geração5.

O Parceiro da Aliança é invocado como “compaixão e piedade, lento para a cólera e cheio de amor”, que não prolonga o seu rancor e nem trata os seus fiéis conforme suas faltas (cf. Sl 103,8-10). O mesmo salmo parece “retocar” a oração de Moisés, mostrando mais o amor e a compaixão do que sua cólera:

Mas o amor de Iahweh!…
existe desde sempre
e para sempre existirá
por aqueles que o temem;
Sua justiça é para os filhos dos filhos,
para os que observam sua aliança
e se lembram de cumprir suas ordens6.

Sua compaixão chega a ser comparada à mãe incapaz de ignorar o sofrimento de seus filhos (cf. Is 49,15), ou ao amor resiliente do marido de uma prostituta (cf. Os 3,1-3).
Contudo, o ápice da compaixão de Deus demonstra-se na encarnação do seu Filho. A encarnação é dádiva e prova de amor aos pecadores (cf. Rm 5,8; 8,32). Nele Deus conhece por dentro a fraqueza humana, tornando-se Servo obediente e assumindo sobre si as nossas culpas.

Compaixão, a solidariedade de Deus

O mesmo verbo grego empregado na aclamação Kyrie eleison está na raiz da palavra esmola (elemosina). Dar esmola é dar ao outro a compaixão, em sentido profundo, sentir com o outro. Deus sente com a humanidade a partir do seu Filho que assume a nossa carne. Seu Filho é sua dádiva solidária que alcança a nossa miséria e a nossa pequenez. Paulo chegará a afirmar que ele foi feito pecado por Deus para nos redimir, embora não houvesse pecado (cf. 2Cor 5,2).

Em questão: a compaixão de Deus

A advertência do Missal aponta na direção dos atributos divinos e da sua ação solidária: Deus se move na direção do pecador, dando-lhe o seu amor, a sua elemosina (compaixão, esmola). O ato penitencial, mais que recordar pecados, recorda a compaixão do Deus de Jesus Cristo, que em seu Filho ergue a todos da morte. O reconhecimento da frágil condição da humanidade se , pois, à luz daquilo que Deus é, pois anterior ao pecado está a graça, o próprio ser do Deus compassivo.

Em qualquer tempo, mas sobretudo na Quaresma, o ato penitencial suscitará a consciência desse amor capaz de mover à reconciliação com Deus e com os irmãos. A execução do rito, a escolha dos cantos e da fórmula, terão em vista, principalmente, essa compreensão do Deus que com seu amor dignifica a humanidade.

1O termo é tão inapropriado que o próprio missal esclarece que o ato penitencial não tem o mesmo valor do sacramento da penitência (cf. IGMR, 51).
2Tropo é uma adição poética que precede ou sucede uma antífona, ou aclamação, desenvolvendo-lhe um aspecto.
3A tradução não diz o real significado da expressão. Kyrie é vocativo de Kyrios (ó Senhor). Eleison é uma forma participial de eleeô, que significa “ter compaixão”. A forma participal de um verbo cumpre a função de adjetivar, de dar qualidade. Assim, a expressão Kyrie eleison tem o sentido de “Senhor, vós sois piedade” que combina perfeitamente com o tropo que lhe dá desenvolvimento.
4Opto pela versão litúrgica, proclamada na quinta feira da primeira semana do tempo da Quaresma.
5Ex 34,6-7.
6Sl 103,17-18.

Pe Danilo César
Liturgista

CINZAS…

cinzas

Vai chegar a festa mais importante do ano, a celebração do acontecimento central e máximo de toda a história da humanidade. Está se aproximando a Páscoa. E porque ela é tão grande, merece uma preparação à altura. Começa na quarta-feira de cinzas a nossa preparação para a Páscoa.

E como inauguramos esta preparação? Colocando cinza sobre a nossa cabeça, como sinal de penitência, isto é, como sinal de que estamos dispostos a nos alinharmos no caminho de Deus com seu projeto de justiça e paz para todos. Além disso, passamos esse dia fazendo jejum, também como sinal de penitência.

Serão então quarenta dias de preparação: Quaresma. A Campanha da Fraternidade deste ano, à luz da Palavra de Deus, vai nos ajudar na preparação da Páscoa, refletindo sobre o tema: “Fraternidade e vida: dom e compromisso”, propiciando caminhos para o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a sociedade, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus.

Quarta-feira de cinzas! Celebramos neste dia o mistério do Deus misericordioso que acolhe nossa penitência, nossa conversão, isto é, o reconhecimento de nossa condição de criaturas limitadas, mortais, pecadoras. Conversão que consiste em crer no Evangelho, isto é, aderir a ele, viver segundo o ensinamento do Senhor Jesus. Numa palavra, trata-se de entrar no caminho pascal de Jesus. “Convertei-vos, e crede no Evangelho”: é o convite que Jesus faz (cf. Mc 14,15).

Esta palavra, a gente ouve, recebendo cinzas sobre a nossa cabeça. Por que cinzas? É para lembrar que, de fato somos pó! Mas não reduzidos a pó!… A fé em Jesus ressuscitado faz com que a vida renasça das cinzas. Quando o ser humano reconhece sua condição de criatura realmente necessitada da ação de Deus, em Cristo e no Espírito, então Jesus Cristo faz brotar vida de nossa condição mortal. Reconhecer-se assim, é entrar numa atitude pascal, isto é, de passagem com Cristo da morte para a vida. Esta páscoa, a gente vive na conversão, através dos exercícios da oração, do jejum e da esmola ou partilha de bens e gestos solidários, no espírito do Sermão da Montanha.

Páscoa que celebramos na Eucaristia, pela qual aclamamos Deus como aquele que, acolhendo nossa penitência, corrige nossos vícios, eleva nossos sentimentos, fortifica nosso espírito fraterno e, assim, nos dá a graça de nos aproximarmos do seu jeito misericordioso de ser, e nos garante uma eterna recompensa.

Por isso que o sacerdote, em nome de toda a assembléia, canta na Oração Eucarística: “Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso…, vós acolheis nossa penitência como oferenda à vossa glória. O jejum e abstinência que praticamos, quebrando nosso orgulho, nos convidam a imitar vossa misericórdia, repartindo o pão com os necessitados […] Pela penitência da Quaresma, vós corrigis nossos vícios, elevais nossos sentimentos, fortificais nosso espírito fraterno e nos garantis uma eterna recompensa” (Prefácio da Quaresma III e IV).

Junto com a oferta total de Cristo ao Pai, pelo Espírito Santo, na Liturgia eucarística, une-se também a oferta de nossa penitência quaresmal. E Deus, por sua vez, nos recompensa com o corpo entregue e o sangue derramado de seu Filho Jesus, na santa comunhão.

Que o Cristo pascal nos ajude, para que o nosso jejum seja realmente agradável a Deus e nos sirva de remédio para a cura dos nossos vícios. E assim possamos celebrar dignamente a santa Páscoa de Cristo e nossa Páscoa.

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

A Palavra de Deus cantada

“E o povo todo respondeu a uma só voz”

Na Celebração Eucarística, segundo o Rito Romano, se prevê para depois da “Primeira Leitura” um canto denominado “interlecional”. Trata-se de um Salmo entoado por um ministro específico, o salmista, e, na sua ausência, o leitor ou cantor. A assembleia, depois de ouvir os versículos por ele proferidos responde com o refrão previsto no Lecionário.

O Elenco das Leituras da Missa (OLM) prevê a celebração litúrgica da Palavra de Deus como oportunidade na qual Ela (a Palavra) se exprime de maneiras diversas, de modo que seja sempre viva e eficaz. Para o OLM o Salmo Responsorial é “uma parte integrante da Liturgia da Palavra”. Unido às demais leituras bíblico-litúrgicas, o Salmo Responsorial é considerado na sua riqueza pastoral, no conjunto das demais peças da Escritura desenvolvidas e concluídas pela homilia, profissão de fé e oração dos fiéis . Muito embora seja também expressão orante da Igreja, transmite a Palavra Divina que deve ser escutada e acolhida pelos fieis. Fazê-lo do Ambão como nos indica o OLM não “de um lugar oportuno” como sugere a Intrução Geral do Missal Romano nº 61, confere ao Salmo o status adequado de proclamação da Palavra de Deus cantada.

“Faremos tudo o que o Senhor disse”

O canto dos Salmos configura-se uma tradição que, na Igreja, remonta ao próprio Jesus. O Livro dos Salmos, desde épocas imemoriais, é considerado o Livro de Orações por excelência. Para Jesus, como membro do povo judeu, homem cuja atividade cotidiana brotava da oração, certo que os Salmos eram elemento chave da vida espiritual. Seja na Sinagoga, no Templo ou em sua casa, como também em suas pregações é possível reconhecermos o lugar que os poemas de louvor ocupavam em seu ministério.

Ao rezar, Jesus usará naturalmente essa oração do povo em que nasceu e ao qual pertence. Na sinagoga ou no Templo, ele se unirá aos judeus seus compatriotas, para rezar os Salmos. Quando subir a Jerusalém, ele se unirá ao grupo de peregrinos para cantar os salmos das subidas (Sl 119-133). Na última Ceia, recitará o que os judeus chamam de “Grande Hallel”, os Salmos 134-135, prescritos pela Lei nas grandes festas. Na cruz, para fazer subir a seu Pai a oração que o habita, Jesus exclamará com uma voz forte, nos mesmos termos que o Salmista do Salmo 21(22): ‘Eli, Eli, lema sabachtani: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?’ Enfim, depois de pronunciar o versículo 6 do Salmo 30(31) Jesus morre na cruz: “E Jesus clamou com uma voz forte: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’. E dizendo isso expirou”.

O canto dos Salmos nas celebrações cristãs, portanto, são tidos como herança recebida do Senhor. Nossa maneira de empregá-los e deles de o vivenciarem na Liturgia está intimamente relacionada com “seu acontecimento”. Rezamos os Salmos na esteira da tradição de Jesus. Isso nos leva a compreendê-los como composições litúrgicas portadoras de um significado cristológico.

Em diversas passagens do Novo Testamento Jesus se refere ao sentido de seu ministério e de sua identidade messiânica a partir dos Salmos. O drama final de sua vida – a paixão e morte – por ele interpretado a partir da Escritura – inclui explicitamente o livro dos Salmos: “São estas as palavras que vos falei, quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.” Desse modo, os Salmos não apenas encerram a oração de Cristo, mas sobretudo revelam sua alma, sua vida, seus desejos, inclinações e sentimentos; conduzem nosso olhar para a experiência da vontade do Pai que se realiza em sua pessoa. “Quando chegou o terceiro dia, ao raiar da manhã (…) uma nuvem cobriu a montanha”.

Os Santos Padres compreendem os Salmos como proclamação da Palavra de Deus o que significa intuir que a vontade salvadora de Deus, por eles, se torna manifesta. Por isso, Pacômio, fundador da vida monástica cenobítica (comunitária) diz que “não pode haver ninguém no mosteiro que não aprenda a ler e que não conheça de cor alguma parte das Escrituras, ao menos do Novo Testamento e do Saltério” e convida para que todos sejam “assíduos aos Salmos e orações.” Em sua “Carta a Marcelino”, Atanásio afirma que

o Livro dos Salmos… como um jardim que tivesse nele uma sementeira de frutos dos outros livros, canta-os a todos e, inclusivamente deles oferece o seus próprios frutos (…) no livro dos Salmos podem-se entender e discernir os impulsos da própria alma (…) Quem lê os salmos … diz as palavras como se fossem suas, e as salmodia como se dele mesmo tivesse escrito. Para aquele que salmodia, os salmos são como espelho no qual se pode contemplar a si mesmo, ver os impulsos de sua alma (…). Certamente, toda a Escritura é mestra da virtude e da fé verdadeira, mas o livro dos Salmos oferece, além disso, o ícone para a direção das almas. Recitar o livro dos Salmos não é cultivar o prazer do sons, mas traduzir uma harmonia interior em música (…) Os cristãos deveriam fazer suas as orações bíblicas, especialmente os salmos.

Ambrósio de Milão se pergunta

Que há de mais agradável que um salmo? Na verdade, o Salmo é a bênção do povo, o louvor de Deus, o hino dos fiéis, o aplauso da assembleia, a palavra da multidão, a voz da Igreja, a exultante confissão da fé, a expressão autêntica da piedade (…). No salmo, ao mesmo tempo canta-se com gosto e aprende-se com proveito. Haverá alguma coisa que não encontres quando lês os salmos? Neles encontro a graça da revelação, o testemunho da Ressurreição, os dons da promessa.

É bem fácil perceber nas palavras desses três padres da Igreja o quanto o Livro dos Salmos sempre foi estimado e assumido como referência obrigatória para a oração cristã privada ou litúrgica. O motivo fundamental pelo qual os Salmos são muitíssimo queridos e propostos como “regra” para a oração pode ser encontrado numa outra passagem de Ambrósio quando ele afirma que os Salmos ora anunciam Cristo, ora procedem do próprio Cristo, proclamando o que em seu corpo se realizará.

Aqui se abre para nós o conceito de “Cântico Novo”, referindo-se a uma nova realização de Deus em favor de seu povo. Trata-se de uma nova vida nascida em Deus e assumida como dom recebido pelo Povo. O cântico de Moisés após a libertação do Egito é assim classificado.

Os cristãos também entoam um “Cântico Novo”: a vitória do Cordeiro sobre a morte. É um hino pelo qual se manifesta a todo o cosmo o sentido último da criação que se dá a partir da dignidade de quem fora imolado e ressuscitado. Esse canto dirigido a Cristo se exprime assim: “foste morto e compraste para Deus com o teu sangue homens de toda tribo, língua, povo e nação; fizeste deles para nosso Deus um Reino de Sacerdotes e reinarão sobre a terra.” Esse hino com ares sálmicos celebra a transformação que se opera nos fies redimidos pelo Mistério da Páscoa. Logo, o canto novo diz respeito não apenas a um louvor sonoro-musical, mas à experiência nova que se dá pela entrega de Cristo Jesus e nossa associação a ela.

“O Monte Sinai fumegava pois o Senhor desceu sobre ele”

Xabier Basurko nos lembra que o canto mais antigo da missa é o “interlecional”, isto é, o canto ligado às leituras. São cantos tradicionalmente construídos com a estrutura responsorial predominante até o século IV. A reforma litúrgica promovida a partir do Concílio Vaticano II reconduziu o Salmo Responsorial à seu lugar de dignidade, uma vez que houve um “empobrecimento” com a fixação do Salmo Gradual, no que concerne ao caráter litúrgico. O Gradual é composto de pouquíssimos versículos e sua melodia é bastante desenvolvida o que exige grande habilidade para executá-la. O Salmo Responsorial conforme a reforma litúrgica previu, recuperou a singeleza original, devolvendo-lhe seu aspecto proclamativo pelo uso de fórmulas salmódicas ligadas à cantilena. O uso abundante do refrão também propiciou a devolução do Salmo ao seu sujeito eclesial por excelência que é a assembleia.

O percurso feito até aqui no tocante ao canto cristão dos Salmos nos indica que também na Missa o salmo responsorial necessita ser assumido em sua perspectiva de anúncio do Mistério de Cristo e também de assentimento, acolhida e resposta a este dom do Pai por parte da Assembleia. O aspecto “meditativo” deve ser compreendido nesta direção. Não se trata apenas de um movimento mental, reflexivo, mas de uma ação ritual da qual se ocupa toda a comunidade de fieis em parceria com o ministro salmista. É uma ação que envolve todos os sentidos. Pensemos, como exemplo, no Salmo Responsorial previsto para a Missa de Vigília de Pentecostes. Enquanto o salmista entoa o versículo: “Todos eles, ó Senhor, de vós esperam, que a seu tempo vós lhes deis o alimento; vós lhes dais o que comer e eles recolhem, vós abris a vossa mão e eles se fartam” a assembleia contempla o altar e nele reconhece o Evangelho como aquele alimento que o Senhor fracionará e distribuirá. Imediatamente, desde o cântico do Salmo Responsorial, já se ilumina a experiência próxima da comunhão eucarística. E não só: o alimento dado por aquele que vem como sopro vivificador (o Espírito que renova a face da terra) é a própria Palavra de Deus doada ao Povo e entregue nas mãos de Moisés no alto Sinal na forma de mandamentos; e todos que vão ao altar podem fartar-se, saciar-se da água viva que de lá jorra. Água que rejuvenesce a fé e que passam a brotar daqueles que se ocupam de sua palavra. Por sua vez, o Salmo Responsorial é já no contexto da celebração litúrgica este mesmo rio que jorra do interior dos fieis. De fato, aos olhos e ouvidos, no corpo de uma assembleia atenta e formada, o Salmo Responsorial torna-se uma experiência espiritual deveras profunda.

“O som da trombeta ia aumentando cada vez mais”

Apenas uma questão para nos ocupar: que lugar tem o Salmo bíblico em nossa vida de oração? Cultivo a experiência do ofício divino? Quais seus frutos? Como o Salmo Responsorial na Miss anos ajuda a “decifrar” o Mistério de Cristo na celebração mas também (e sobretudo) no mundo?

 

Padre Márcio Pimentel (Liturgista)

Sagrada Liturgia

Constituição Sacrosanctum Concilium (SC), carta magna da Liturgia de rito romano, foi promulgada em 4 de dezembro de 1963 pelo Papa Paulo VI. Com ela, a Igreja Latina teve a oportunidade de redescobrir a fonte de sua espiritualidade, há muito esquecida: a Sagrada Liturgia. Uma análise profunda da Constituição nos fará perceber que, em síntese, a Liturgia é Cristo. Sua vida, sua pessoa, sua palavra e suas ações podem ser contempladas, saboreadas e vividas mediante os ritos e preces da Igreja. Numa expressão muito simples, mas de grande teor teológico: “Liturgia é a encarnação do Mistério Pascal em nosso corpo.” 1

Essa compreensão sobre a Sagrada Liturgia é fruto de um longo percurso: o Movimento Litúrgico, que começou no final do século XIX. A SC só pode ser compreendida dentro deste grande processo de renovação da vida cristã. A valorização das fontes bíblicas, patrísticas e litúrgicas – documentos antiquíssimos que narram, exprimem e até regulamentam a vida espiritual da Igreja dos primeiros séculos – foi decisivo para a confecção da Constituição sobre a Liturgia.

Uma consulta mais pormenorizada do texto da SC nos fará perceber várias citações não apenas bíblicas, mas de teólogos da época patrística (Inácio de Antioquia, Agostinho). Há também muitas alusões aos textos litúrgicos (Sacramentário Veronense, Missal Romano). Por esta razão, costuma-se dizer que o Concílio devolveu a Liturgia às suas origens, uma vez que muitos elementos haviam se perdido ou descaracterizado com o passar do tempo.

Evidentemente, as orientações emanadas da Sacrosanctum Concilium não se limitam ao “restauro” de elementos rituais que tinham caído em desuso como o Salmo Responsorial, a homilia e a oração dos fieis no caso da Missa. A SC propôs uma compreensão diferente sobre a Liturgia, daquela que estava em vigor. A Liturgia, toda ela, e não apenas a Celebração Eucarística, é vista como expressão e manifestação do Mistério de Cristo total: cabeça e membros (SC 2).

Rompe-se com aquela compreensão puramente cerimonial dos ritos e parte-se para a aproximação pastoral, teológica e espiritual que entende a linguagem antropológicocultural e religiosa como decisiva para seu incremento. Sobre isso, o número 5 da SC afirma: “havendo outrora falado muitas vezes e de muitos modos aos pais pelos profetas (Hb 1,11), quando veio a plenitude dos tempos, mandou seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, para anunciar a boa nova aos pobres, curar os contritos de coração como médico da carne e do espírito, mediador entre Deus e os homens. Com efeito sua humanidade, na unidade da pessoa do Verbo, foi o instrumento de nossa salvação”.

1(PASTRO,Claudio. O Deus da beleza.  São Paulo: Paulinas, 2008, p.32

Pe. Márcio Pimentel
Liturgista

 

 

Eis que o Filho de Deus vem a nós!

Depois de quatro semanas em preparação para o “Dia de Cristo”, eis que a certeza da chegada do Senhor[1] varre a iniquidade da terra[2] de modo que a natureza humana se vê, em cada fiel, renovada [3].

É com este tom sacramental que São Leão Magno compreendia o acontecimento da Encarnação do Verbo celebrado na liturgia do Natal, como ocasião para a restauração do ser humano:[4] “Reconheça, portanto, a fé católica na humildade no Senhor a sua nobreza e a sua glória… fez-se homem do nosso gênero, para nos podermos tornar consortes da natureza divina. A fonte de vida que tomou no seio da Virgem, pô-la na fonte do batismo; deu à agua o que tinha dado à sua Mãe: porque o poder do Altíssimo e a sombra do Espírito  Santo fez com que Maria desse ao mundo o Salvador, essa mesma faz que a água regenere a quem crê.”[5]  Noutro de seus sermões por ocasião do Natal assume com tom claro: “o Natal do Senhor em que o Verbo Se fez carne, não tanto o havemos de lembrar como  acontecimento passado, mas antes imaginá-lo como se o vissem agora os nossos olhos.”[6]

A eucologia (orações) das Missas do Natal (vigília, noite, aurora e dia), em grande parte oriundas do antigo Sacramentário Veronense insistem nesta teologia na qual o Natal do Senhor é concebido como um acontecimento sacramental, isto é, como um evento que alcança os fiéis hoje: “…por este mistério nos mostrais o inicio da nossa salvação”[7] ; “Concedei, ó Deus, que sejamos renovados ao celebrarmos o Natal do vosso Filho”[8] ; “fazei que manifestemos em ações o que brilha pela fé”[9] ; “dá-nos participar da divindade do vosso Filho”[10] .

Também os cantos da Missa (Antifonal) insistem que o Natal do Senhor é um acontecimento hodierno: “Hoje sabereis que o Senhor vem”[11] ; “O Senhor me disse: ‘És o meu Filho, eu hoje te gerei’”[12] ; “Hoje surgiu a luz para o mundo”[13] .

Pondo na boca da assembleia esta teologia, a Liturgia nos incita para que assumamos em nossa corporeidade e por ela, isto é, nas relações que somos chamados a estabelecer no seio do mundo, o Mistério da Encarnação. Por esse Mistério que se torna em nós conhecido e comunicado, Deus cura o mundo por meio da carne de seu Filho.[14]

O Filho vem a nós para restabelecer o nosso diálogo com seu Pai. Para adentrarmos no clima de familiaridade com Ele. Na verdade, esse é um grande presente para o nosso mundo no momento presente. Vivemos um tempo carente da capacidade de dialogar. Crescem a intolerância e o autoritarismo.  O encontro com o outro perde, paulatinamente, sua importância humanizante.  Pelo Natal de Jesus, a fé cristã insiste na necessidade do encontro que enxerga com ternura e cuidado a face do outro e por ela se deixa interpelar. A Igreja o solicita não apenas por uma necessidade antropológica de socialização, mas porque é o encontro e o diálogo fazem parte da natureza íntima da fé e são experimentadas por ela como graça.

Este mistério clama em nós, num momento histórico no qual “crescem manifestações de preconceito racial, étnico, religioso, sexual, que pensávamos superadas. À direita e à esquerda, a partir de todos os credos, de todas as defesas que deveriam ser mais justas e generosas. Ao mesmo tempo que idiossincrasias brutais se afirmam contra pessoas e grupos, sentimentos socialmente necessários, aqueles que se voltam para o outro na intenção de compreendê-lo, acolhê-lo – em uma palavra, amá-lo – não tem lugar entre nós. A mais básica abertura a uma conversa se torna inviável quando os indivíduos estão fechados em seus pequenos universos previamente formados e informados de tudo o que supõem saber.” [15]  É neste contexto que a Liturgia do Natal nos desafia.

[1] Cf. Antífona de Entrada da Missa da Vigília.
[2]Cf. Aclamação ao Evangelho da Missa da Vigília.
[3]Cf. Oração depois da comunhão da Missa da Vigília.
[4]Cf. Sermão 5 in. Antologia Litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, n. 4279, p. 1021.
[5]São Leão Magno, idem.
[6]Sermão 9, in. Antologia Litúrgica, n. 4299, p. 1024.

[7]Oração sobre as oferendas da Missa da Vigília.
[8]Oração depois da comunhão da Missa da Vigília.
[9]Oração do Dia da Missa da Aurora.
[10]Oração do Dia da Missa do Dia.
[11] Antífona de Entrada da Missa da Vigília

[12/ Antífona de Entrada a Missa da Noite.

[13] Antífona de Entrada da Missa da Aurora.
[14] Cf. Agostinho. Tratado sobre o Evangelho de João 2,14-16 in. Lecionário Patrístico Dominical. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 544.
[15] TIBURI, Márcia. Como conversar com um fascista. Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 2015, p. 27.

Padre Márcio Pimentel  (Liturgista)

O Natal como sacramento da regeneração

Se Santo Agostinho chama o Natal de “aniversário”, ainda que com um sentido mais profundo e um significado mais abrangente do que o habitual, São Leão Magno vai muito além. Não são poucos os sermões de sua autoria que trazem consigo elementos-fonte para os textos eucológicos do tempo do Natal, sobretudo pela marcante teologia presente nos libbeli do Sacramentário Veronense, também chamado de Leonino.

Para este Papa, cujo pontificado se deu entre 440 e 461, a celebração da Natividade do Senhor passa muito distante da lembrança de uma data. É verdadeiro sacramento, pelo qual “o círculo do ano faz-nos outra vez presente (reparatur, isto é re+apresentação) o mistério (sacramentum) da nossa salvação.” Ou seja, Leão Magno compreende que, pelas vias da ritualidade litúrgica, os fiéis podem participar do nascimento de Cristo, uma vez que foram “admitidos” neste evento. A alegria e o prazer de celebrar o Natal se funda no fato de, pelo “nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual Ele Se vestiu da carne da nossa natureza” se explica em razão de “nos tornarmos consortes da natureza divina”.

A Liturgia, portanto, dá acesso ao acontecimento. É porta de ingresso no mistério. Não é apenas um ensino sobre ele, mas a condição de nossa participação nele, afinal “o que era visível em nosso Salvador passou para seus mistérios”, segundo o mesmo Papa Leão (CIC 115). Por esta razão terá muita importância para Ele o advérbio “hoje”.

“Hoje o Verbo de Deus apareceu vestido de carne… Hoje, os pastores souberam pelas palavras dos Anjos que o Salvador tinha nascido… Hoje, aos que estão à frente dos rebanhos do Senhor foi entregue nova forma de mensagem (…) A festa de hoje renova para nós o sagrado início da vida de Jesus, nascido da Virgem Maria. E enquanto adoramos o nascimento do nosso Salvador, celebramos também o nosso nascimento. Efetivamente, a geração de Cristo é a origem do povo cristão: o Natal da cabeça é também o Natal do Corpo.”

Deste modo, continua noutro lugar, “o Natal do Senhor, em que o “Verbo se fez carne”, não tanto o havemos de lembrar como acontecimento do passado, mas antes imaginá-lo como se o vissem agora nossos olhos.” E como o veem senão pela condicionalidade da mesma carne assumida pelo Verbo, cujos ritos litúrgicos são verdadeira extensão? Aliás é exatamente isto que afirma o Catecismo da Igreja Católica ao tratar da Economia Sacramental presente na Igreja: que pelos gestos (ritualidade) e palavras (Sagrada Escritura e eucologia) o mesmo Cristo age no hoje dos fiéis (cf. CIC 1088). A lógica é simples: se Deus nos alcançou na carne, abrançando e assumindo nossa humanidade para comunicar o Deus, é pela mesma carne que este mistério pascal “permanece  e atrai tudo para a vida”.

A eucologia das missas do Natal do Senhor nos apresentam com nitidez esta compreensão:

“Concedei, ó Deus, que sejamos renovados, ao celebrarmos o Natal de vosso Filho, que se faz alimento e bebida neste divino mistério.” (Oração depois da comunhão na Missa da Vigília)

“Acolhei, ó Deus, a oferenda da festa de hoje, na qual o céu e a terra trocam seus dons, e dai-nos participar da divindade daquele que uniu a vós a nossa humanidade.” (Oração sobre as oferendas, Missa da Noite)

“Nós vos pedimos, ó Deus, que estas oferendas realizem em nós o mistério do Natal.” (Oração sobre as oferendas da Missa da Aurora)

“Ó Deus que, admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participara da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade.” (Oração do Dia da Missa do Dia)

Conclui-se, pois, que a celebração do Natal do Senhor deve nos orientar na participação de um acontecimento e não, simplesmente, nos referir a uma data perdida no passado e que o caminho para isso passa por assumir os ritos como porta de acesso ao mundo do Deus-Conosco.

Padre Márcio Pimentel
Liturgista

O verbo de Deus virá a nós

Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta, não. Na primeira vinda o Senhor apareceu na terra e conviveu com os homens. Foi então, como ele próprio declara, que viram-no e não o quiseram receber. Na última, todo homem verá a salvação de Deus (Lc 3,6) e olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10). A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos o veem em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira, o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária, vem espiritualmente, manifestando o poder de sua graça; na última, virá com todo o esplendor da sua glória.

Esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho que conduz da primeira à última; na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na intermediária, é nosso repouso e consolação.

Mas, para que ninguém pense que é pura invenção o que dissemos sobre esta vinda intermediária, ouvi o próprio Senhor: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele (cf. Jo 14,23). Lê-se também noutro lugar: Quem teme a Deus, faz o bem (Eclo 15,1). Mas vejo que se diz algo mais sobre o que ama a Deus, porque guardará suas palavras. Onde devem ser guardadas? Sem dúvida alguma no coração, como diz o profeta: Conservei no coração vossas palavras, a fim de que eu não peque contra vós (Sl 118,11).

Guarda, pois, a Palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem e tua alma se deleitará na fartura. Não esqueças de comer o teu pão para que teu coração não desfaleça, mas que tua alma se sacie com este alimento saboroso.

Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará. Virá a ti o Filho em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas. Graças a essa vinda, como já refletimos a imagem do homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do homem celeste (1Cor 15,49). Assim como o primeiro Adão contagiou toda a humanidade e atingiu o homem todo, assim agora é preciso que Cristo seja o senhor do homem todo, porque ele o criou, redimiu e o glorificará.

 

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)
Paróquia São Sebastião e São Vicente

A Liturgia comparada como método de estudo

A nostalgia é uma daquelas tentações que sempre rondam a comunidade cristã: “tentação bastante antiga”, segundo Massimo Faggioli, teólogo e historiador da Igreja. O estudioso afirma que essa tentação pode levar ao que ele denomina “estado de negação”, de modo que sejamos iludidos sobre um possível retorno ao passado. Mas, como dissera outrora o Papa Francisco, voltar ao passado não é possível. Em matéria litúrgica, seria inclusive um insulto contra o Espírito Santo, que dotou a Igreja de formas novas e necessárias para fazer memória do evento Pascal de Cristo. Ao passado não se pode retornar, mas é possível considerá-lo como fonte.

Nesse sentido é que se compreende o conjunto dos procedimentos eclesiais que visaram recuperar a jovialidade da experiência evangélica na Igreja pós-conciliar. Dentre esses empenhos, a reforma litúrgica rebrilha, sobretudo, por seu caráter de ‘retorno às fontes’ bíblicas, litúrgicas e patrísticas. É necessário conhecer esse processo longa e responsavelmente preparado por quase um século, e que resultou na reforma dos ritos. Na verdade, é preciso conhecer mais a fundo os vários processos de reforma e transformação pelos quais a Liturgia passou, desde o cenáculo, para valorar de maneira significativa aquilo que o Concílio Vaticano II nos proporcionou.

O marco da Liturgia Comparada

Construir a ‘história da Liturgia’ é tarefa, sobretudo, para especialistas – muito embora devamos todos estudar e beber de suas descobertas e nos formar aproveitando seus empenhos e pesquisas. Dentre vários especialistas do estudo da historiografia litúrgica, temos Anton Baumstark que nos brindou, na década de 50 do século passado, com seu método de estudo da Liturgia chamado “Liturgia Comparada”.

No primeiro capítulo de sua publicação, Baumstark afirma que:

“Na liturgia se escuta como bate o coração da igreja. Na oração que se eleva até o trono de Deus, na plenitude da graça sacramental que desce sobre a comunidade dos fiéis, se capta a poderosa respiração do corpo místico de Cristo […] Estas pulsações, pois, jamais darão lugar ao rigor cadavérico que se apresenta entumecido por uma definitiva imobilidade. Se este intercâmbio de orações e de graças, ‘sustança’ da vida litúrgica, deve ser invariável com o passar de todos os séculos e idêntico em todos os ritos, as formas mesmas que a liturgia toma, se encontram, por sua natureza, submetidas a uma constante evolução”.

O magistério eclesial concorda com esta intuição de Baumstark. No primeiro número da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC), encontraremos a seguinte afirmação:

“O sagrado Concílio propõe-se a fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar a união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia”.

Padre Márcio Pimentel
Liturgia

A santidade e sua conexão com a liturgia

O Concílio Vaticano II, ao defender a necessidade da reforma geral da Liturgia, identificou-a como fonte primeira do verdadeiro espírito cristão. Sabe-se que essa afirmação foi colhida do magistério eclesial, no caso, Tra le solicitudine (1910) um dos escritos do Papa Pio X. Esta afirmação, que reconhece as celebrações da Igreja como espaço de beber do Espírito Santo, que lembra em nós o Verbo de Deus, em tudo o que disse e fez, conformando-nos a Ele como expressão de seu Mistério, precisa ser levada a sério no contexto da nova Exortação Apostólica de Francisco: Gaudete et Exsultate (GE).

Chama atenção que o Papa trate da questão cultual numa perspectiva mais existencial que celebrativa. Numa fidelidade impressionante ao Evangelho, na mais concorde tradição profética também assumida por Jesus em seu tempo, o culto só é bem visto em sua relação com o amor ao próximo. Francisco assevera de modo lancinante: “A oração é preciosa, se alimenta uma doação diária de amor. O nosso culto agrada a Deus, quando levamos lá os propósitos de viver com generosidade e quando deixamos que o dom lá recebido se manifeste na dedicação aos irmãos” (GE 104). Esta afirmação não significa outra coisa senão que a oração deve ser – de fato – fonte. A oração litúrgica, mais propriamente, por ser prolongamento da ação sacerdotal de Cristo, somente tem valor para os fiéis se guiada por este princípio. Se as celebrações não se configurarem como atuação do Espírito de Jesus na carne dos fiéis, não têm qualquer serventia no horizonte do Reinado de Deus e do Evangelho que o anuncia.

Em um parágrafo pleno de clareza e profundidade, Francisco expõe que a santidade é, em suma, “viver em união com Ele (Jesus) os mistérios de sua vida” (GE 20). Podemos dizer que se trata de um “assemelhar-se” a Cristo. No mesmo número, ele desdobra esta compreensão com as palavras que seguem: “consiste em associar-se duma maneira única e pessoal à morte e ressurreição do Senhor, em morrer e ressuscitar continuamente com Ele. Mas pode também envolver a reprodução na própria existência de diferentes aspectos da vida terrena de Jesus: a vida oculta, a vida comunitária, a proximidade aos últimos, a pobreza e outras manifestações da sua doação por amor.

 

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)
Paróquia São Sebastião e São Vicente

 

Ritualidade: um caminho para assumir a humanidade filial de Jesus

estamos refletindo sobre as imagens de Jesus que a Liturgia veicula. A primeira delas, o Filho, foi abordada sob o ponto de vista bíblico e também eucológico. É importante, ainda, nos debruçar sobre o modo pelo qual as celebrações transmitem ou comunicam essa experiência filial de Jesus à comunidade celebrante. Tomaremos como referência para a nossa reflexão uma afirmação do teólogo espanhol José María Castillo sobre a cristologia que os apóstolos aprenderam com Jesus. Castillo, provocativamente, defende uma aproximação da figura de Jesus que respeite sua humanidade, pela qual Deus é anunciado e se faz presente. Para o teólogo, esta discussão é importante porque se desdobra numa ética questionável:

Na Igreja houve mais dificuldade para aceitar a humanidade de Jesus do que a divindade de Jesus. O que quer dizer que se entendemos por divino tudo aquilo que se encarna no sagrado, na Igreja, o sagrado manda mais do que o profano (…). Deparamo-nos com a dificuldade que estamos experimentando com tanta frequência e em assuntos enormemente importantes. Por exemplo, como em nome do direito divino se limitam ou simplesmente se eliminam os direitos humanos.”1 

Primeiramente, é importante reiterar que não nos seria possível o culto sem reconhecermos a humanidade de Jesus como reveladora de Deus e salvadora do gênero humano. Ela é paradigmática para todo o edifício celebrativo dos cristãos. O Verbo se fez carne, Deus se humanou. Como já dito antes, a palavra e a gestualidade de Jesus fundamentam a prática litúrgica. Enquanto noutras religiões o culto se estabelece pela dimensão cósmica ou pelas narrações míticas, a liturgia cristã se orienta a partir da história de um ser humano real e concreto, situável seguramente no tempo e no espaço: Jesus de Nazaré. Isso não significa negar os elementos cósmicos e míticos, mas estes recebem uma abordagem diferente porque são tomados a partir da existência histórica de Jesus.

Um dos elementos rituais que melhor traduzem esta condição filial de Jesus é a convivialidade eucarística que se exprime em alguns momentos-chave da Missa. Citaremos aqui dois deles. Em primeiro lugar, a postura filial de nos reunir ao redor da Mesa do Senhor. É verdade que essa orientação da assembleia em referência clara ao altar nem sempre é conseguida. Arquitetonicamente e também pelas limitações de uma teologia ainda pré-conciliar, não nos demos conta da importância de resgatar este elemento original e originante da Eucarisita. Duas das 14 orações que fazem o sacramento, a prece eucarística ou anáfora como dizem os orientais, a primeira e a quarta, afirmam que a assembleia está circunstante ao altar. Isso significa: de pé e ao redor, como uma família. Estamos à mesa com Jesus. Ele a preside, assumindo entre nós o lugar que seria do Pai, como revelador nato de sua presença. Olhamos para Ele e reconhecemos a ternura paterna e materna de Deus, que se despe de sua divindade, temporariamente, para revestir-nos com ela. O Mistério da Encarnação é um acontecimento no qual Deus – em Jesus – se despoja e torna a ser revestido. Cruz, morte, ressurreição, ascensão e pentecostes referem-se a esse Mistério chamado Pascal. Não somos divinos por origem. Tornamo-nos divinos porque somos assimilados por Deus como membros de sua família.

Abre-se, então, o segundo elemento: chamarmos a Deus de Pai. Foi muitíssimo acertado a tradição litúrgica ocidental haver inserido o Pai Nosso na intersecção da Prece Eucarística com o Rito da Comunhão. Postarmo-nos ao redor da mesa exige que entremos em relação com  Deus, que Jesus revela assumindo o lugar de filho. Desta maneira, a oração dominical revela e faz reverberar essa transmutação dada no Batismo-Crisma e que deve nos orienta religiosa e eticamente. Ao dizermos juntos “Pai-Nosso”, não só obedecemos ao mandato de Jesus (“quando fordes conversar com Deus, dizei assim…”), mas por tal escuta permitimos que se cumpra sua missão, que ela se realize em nós.

Padre Márcio Pimentel
Liturgista

___________________________________

1 “Jesus vivia com as pessoas. Essa é a cristologia que os apóstolos aprenderam”.
José Maria Castillo. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/555445-jesus-vivia-com-as-pessoas-essa-e-a-cristologia-que-os-apostolos-aprenderam-entrevista-com-jose-maria-castillo.
Acesso: 1º de Junho de 2016