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Eis que o Filho de Deus vem a nós!

Depois de quatro semanas em preparação para o “Dia de Cristo”, eis que a certeza da chegada do Senhor[1] varre a iniquidade da terra[2] de modo que a natureza humana se vê, em cada fiel, renovada [3].

É com este tom sacramental que São Leão Magno compreendia o acontecimento da Encarnação do Verbo celebrado na liturgia do Natal, como ocasião para a restauração do ser humano:[4] “Reconheça, portanto, a fé católica na humildade no Senhor a sua nobreza e a sua glória… fez-se homem do nosso gênero, para nos podermos tornar consortes da natureza divina. A fonte de vida que tomou no seio da Virgem, pô-la na fonte do batismo; deu à agua o que tinha dado à sua Mãe: porque o poder do Altíssimo e a sombra do Espírito  Santo fez com que Maria desse ao mundo o Salvador, essa mesma faz que a água regenere a quem crê.”[5]  Noutro de seus sermões por ocasião do Natal assume com tom claro: “o Natal do Senhor em que o Verbo Se fez carne, não tanto o havemos de lembrar como  acontecimento passado, mas antes imaginá-lo como se o vissem agora os nossos olhos.”[6]

A eucologia (orações) das Missas do Natal (vigília, noite, aurora e dia), em grande parte oriundas do antigo Sacramentário Veronense insistem nesta teologia na qual o Natal do Senhor é concebido como um acontecimento sacramental, isto é, como um evento que alcança os fiéis hoje: “…por este mistério nos mostrais o inicio da nossa salvação”[7] ; “Concedei, ó Deus, que sejamos renovados ao celebrarmos o Natal do vosso Filho”[8] ; “fazei que manifestemos em ações o que brilha pela fé”[9] ; “dá-nos participar da divindade do vosso Filho”[10] .

Também os cantos da Missa (Antifonal) insistem que o Natal do Senhor é um acontecimento hodierno: “Hoje sabereis que o Senhor vem”[11] ; “O Senhor me disse: ‘És o meu Filho, eu hoje te gerei’”[12] ; “Hoje surgiu a luz para o mundo”[13] .

Pondo na boca da assembleia esta teologia, a Liturgia nos incita para que assumamos em nossa corporeidade e por ela, isto é, nas relações que somos chamados a estabelecer no seio do mundo, o Mistério da Encarnação. Por esse Mistério que se torna em nós conhecido e comunicado, Deus cura o mundo por meio da carne de seu Filho.[14]

O Filho vem a nós para restabelecer o nosso diálogo com seu Pai. Para adentrarmos no clima de familiaridade com Ele. Na verdade, esse é um grande presente para o nosso mundo no momento presente. Vivemos um tempo carente da capacidade de dialogar. Crescem a intolerância e o autoritarismo.  O encontro com o outro perde, paulatinamente, sua importância humanizante.  Pelo Natal de Jesus, a fé cristã insiste na necessidade do encontro que enxerga com ternura e cuidado a face do outro e por ela se deixa interpelar. A Igreja o solicita não apenas por uma necessidade antropológica de socialização, mas porque é o encontro e o diálogo fazem parte da natureza íntima da fé e são experimentadas por ela como graça.

Este mistério clama em nós, num momento histórico no qual “crescem manifestações de preconceito racial, étnico, religioso, sexual, que pensávamos superadas. À direita e à esquerda, a partir de todos os credos, de todas as defesas que deveriam ser mais justas e generosas. Ao mesmo tempo que idiossincrasias brutais se afirmam contra pessoas e grupos, sentimentos socialmente necessários, aqueles que se voltam para o outro na intenção de compreendê-lo, acolhê-lo – em uma palavra, amá-lo – não tem lugar entre nós. A mais básica abertura a uma conversa se torna inviável quando os indivíduos estão fechados em seus pequenos universos previamente formados e informados de tudo o que supõem saber.” [15]  É neste contexto que a Liturgia do Natal nos desafia.

[1] Cf. Antífona de Entrada da Missa da Vigília.
[2]Cf. Aclamação ao Evangelho da Missa da Vigília.
[3]Cf. Oração depois da comunhão da Missa da Vigília.
[4]Cf. Sermão 5 in. Antologia Litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, n. 4279, p. 1021.
[5]São Leão Magno, idem.
[6]Sermão 9, in. Antologia Litúrgica, n. 4299, p. 1024.

[7]Oração sobre as oferendas da Missa da Vigília.
[8]Oração depois da comunhão da Missa da Vigília.
[9]Oração do Dia da Missa da Aurora.
[10]Oração do Dia da Missa do Dia.
[11] Antífona de Entrada da Missa da Vigília

[12/ Antífona de Entrada a Missa da Noite.

[13] Antífona de Entrada da Missa da Aurora.
[14] Cf. Agostinho. Tratado sobre o Evangelho de João 2,14-16 in. Lecionário Patrístico Dominical. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 544.
[15] TIBURI, Márcia. Como conversar com um fascista. Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 2015, p. 27.

Padre Márcio Pimentel  (Liturgista)

Para refletir

A CF 20 proclama que a vida é dom e compromisso! Seu sentido consiste em ver, solidarizar-se e cuidar. A vida é essencialmente samaritana.

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A Campanha da Fraternidade é uma campanha realizada anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil no período da Quaresma, é um modo privilegiado pelo qual a Igreja no Brasil vivencia a Quaresma.