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Eucaristia: a invocação do Espírito Santo

Na oração eucarística, a Igreja se volta para Deus em dupla atitude: agradecer e suplicar. Dessas suas atitudes, ou movimentos básicos, a Igreja, Corpo de Cristo, desenvolve, como de um núcleo gerador, toda a sua oração1 . Sobre o núcleo gerador das súplicas, a teologia identificou na Tradição ocidental romana, a invocação do Espírito Santo sobre os dons:

Por isso, nós vos suplicamos: santificai pelo Espírito Santo as oferendas que vos apresentamos para serem consagradas, a fim de que se tornem o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, que nos mandou celebrar este mistério

E, igualmente, identificou a invocação do Espírito Santo sobre os comungantes:

… concedei que alimentando-nos com o corpo e sangue do vosso Filho, sejamos repletos do Espírito Santo e nos tornemos em Cristo um só corpo e um só Espírito.

Primeiramente a Igreja pede que o Espírito Santo venha sobre os dons, pão e vinho, para santifica-los, tornando-os sacramento do Corpo e Sangue de Cristo. Em seguida, invoca o mesmo Espírito, para que os que comerão os dons santificados, tornem- se com Cristo uma coisa só.

Um pedido indispensável

Se é para realizar algo tão sublime, a transformação dos dons santificados em Cristo, a Igreja carece da ação de Deus, que começou essa obra pelo Batismo. Sobretudo para este caso, a Igreja eleva sua súplica (epiclese), pois sabe, pelas palavras de Cristo, que não pode fazer nada sem a assistência dele: “sem mim, nada podeis fazer”2 . Sabemos que, na liturgia, a primazia da ação é de Cristo. Ao povo e aos ministérios é dado participar desse agir. Disso também decorre a compreensão da liturgia: nosso culto a Deus não é um ato voluntarista. Somos convocados a tomar parte no Corpo de Cristo, para adorar o Pai em espírito e verdade. Mas essa adoração só se faz à estatura de Deus porque o Corpo (Igreja) tem por Cabeça (o Cristo) e por todo o Corpo se difundem as riquezas do Filho, dentre, elas a comunhão no Espírito3 .

É fato que o Espírito nos socorre em nossa fraqueza, pois não sabemos o que pedir (cf. Rm 8,26), mais ainda neste caso, é Ele quem deve ser suplicado como dom e como Aquele que opera a santificação, ao mesmo tempo. Os muitos pedidos que a oração eucarística encerra decorrem desses “pedidos gêmeos” e explicitam os muitos frutos da atuação do Espírito Santo como riqueza de Cristo aos membros do seu Corpo.

Salvos pela graça do Espírito Santo

O agir do Espírito completa e dá acabamento à salvação que nos foi alcançada por Cristo: “para levar à plenitude os mistérios pascais, derramastes, hoje, o Espírito Santo prometido, em favor de vossos filhos e filhas”4. A oração eucarística III ainda diz: “… que ele faça de nós uma oferenda perfeita para alcançarmos a vida eterna com os vossos santos…”. É por meio do seu agir que a salvação dada por Deus e realizada em Cristo se prolonga hoje, pois a sua atuação está intimamente ligada à atuação das demais pessoas divinas:

O Espírito Santo está em ação com o Pai e o Filho, do início até a consumação do Projeto da nossa salvação. Mas é nos “últimos tempos”, inaugurados pela Encarnação redentora do Filho que ele é revelado e dado, reconhecido e acolhido como Pessoa. Então este Projeto Divino, realizado em Cristo, “Primogênito” e Cabeça da nova criação, poderá tomar corpo na humanidade pelo Espírito difundido: a Igreja, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, a Vida eterna5.

Finalidade da Eucaristia

O estudo das epicleses (invocação do Espírito Santo) nos faz perguntar pelo sentido último da eucaristia que celebramos. Convém recordar que comendo o Corpo e bebendo o Sangue do Filho de Deus ficamos repletos do Espírito Santo para nos tornar em Cristo uma só coisa. Muito se pode deduzir daí: o Papa João Paulo II, citando Efrém, afirma que comemos também o Espírito Santo:

Através da comunhão do seu corpo e sangue, Cristo comunica-nos também o seu Espírito. Escreve santo Efrém: “Chamou o pão seu corpo vivo, encheu-o de si próprio e do seu Espírito. […] E aquele que o come com fé, come Fogo e Espírito. […] Tomai e comei-o todos; e, com ele, comei o Espírito Santo. De fato, é verdadeiramente o meu corpo, e quem o come viverá eternamente”.

Comemos os dons santificados para nos tornarmos hoje, o próprio Corpo de Cristo. A oração após a comunhão do XXVII Domingo do Tempo Comum, falando da embriaguez do Espírito, referência explicita à Pentecostes6 ,  por exemplo, explicita a transformação final a que somos remetidos pela participação na Eucaristia:

Possamos, ó Deus onipotente, saciar-nos do pão celeste e inebriar-nos do vinho sagrado, para que sejamos transformados naquele que agora recebemos. Por Cristo, nosso Senhor.

O rito da invocação do Espírito Santo remete, inevitavelmente, ao rito da comunhão que o completa e finaliza. Se se pede que o Espírito transforme os que vão comer os dons santificados para que os comungantes se tornem o Corpo de Cristo, é necessário que o comam!

À semelhança do sacramento

A súplica do Espírito Santo revela a íntima semelhança entre a vida dos fiéis e os dons santificados: todos são impregnados do Espírito. Por isso, Santo Agostinho afirma:

Se sois o corpo de Cristo e seus membros, vosso mistério repousa sobre a mesa do Senhor: vosso mistério recebeis. Ao que sois, respondeis “amém” e, respondendo subscreveis. Ouvis “corpo de Cristo” e respondeis “amém”. Sê membro do corpo de Cristo para que seja verdadeiro o seu amém7.

 

 

 

 

 

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)
Paróquia São Sebastião e São Vicente

Para refletir

Quem está em consolação preveja como se há de portar no tempo da desolação, que depois virá, tomando novas forças para esse tempo.

E.E 323

Você Sabia

Buscando estimular a participação em Políticas Públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de fraternidade, a Campanha da Fraternidade 2019 terá início em todo o país no dia 6 de março.