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Há uma “utilidade” para a liturgia

A Igreja compreende a Liturgia como um encontro. Nele, Deus abraça a humanidade. Os ritos são a possibilidade deste enlace. Gesto humano que traduz a Palavra Divina. Graça que, supondo a natureza, a dignifica transformando-a em veículo de sua Sabedoria. Carne que hospeda o Clarão da Glória do Pai, Cristo Jesus, conforme se canta aos Domingos na Liturgia das Horas. Haveria, então, utilidade neste acontecimento da fé?

Ao tratar sobre a educação dos sentidos, Rubem Alves cita Santo Agostinho afirmando que o corpo da gente traz consigo duas caixas: uma de ferramentas, na mão direita e outra de brinquedos, na mão esquerda.[1]  Segundo ele, as ferramentas servem para aprimorar nosso corpo em suas limitações. Objetos, habilidades e conhecimento são instrumentos que transmitimos geração após geração no intuito de melhorar o mundo mediante nosso trabalho. Produzem cultura que, segundo Bento XVI, molda a convivência humana. [2] Já a caixa de brinquedos, segundo Rubem, está lotada de “coisas que não servem para nada. Inúteis.” [3] Para o pedagogo, teólogo e também poeta, o que há na caixa de brinquedos não visa – de antemão – melhorar ou aperfeiçoar o corpo, mas sim oferecer-lhe prazer. Isso porque “não são para serem usadas, mas para serem gozadas.” [4]Enquanto aquilo que é útil na versão de Agostinho serve como ferramenta para produzir algo utilizável, o que é da ordem da fruição, na perspectiva do bispo de Hipona, pertence à esfera do amor.

Quando na década de 1918 o grande teólogo Romano Guardini falou sobre o espírito da liturgia, obra mais tarde relida pelo então Cardeal Ratzinger, disse algo parecido sobre as celebrações.   Ao aplicar à Liturgia o conceito de “jogo”, Guardini intui que as celebrações não se explicam primeiramente por uma finalidade prática e portanto, como instrumentos para se alcançar um fim, sem o qual se perderia a razão. Para o teólogo alemão, “muitas coisas não têm, em rigor,  finalidade prática, mas têm um sentido.” [5] Para ele, este sentido se encontra naquilo que de fato são e não em algo que lhes é exterior, pelo que se tornariam não mais do que coisas úteis (Agostinho) ou ferramentas (Rubem Alves).

Romano Guardini aplica essa lógica não apenas para a Liturgia, mas para tudo o que há no mundo, afirmando que são duas direções interpretativas da vida diferentes. Quando entra no âmbito das coisas da Igreja, exemplifica com o Código de Direito Canônico, por cujas normas administrativas e constituições, orienta-se para um fim prático, que é regular as interações na vida eclesial. Ao se referir à Liturgia, ainda que sem deixar de reconhecer que “cada gesto, cada oração, cada movimento, cada cerimônia litúrgica implicam uma finalidade pedagógica, instrutiva e prática” [6] compreende que as celebrações não podem subordinar-se primeiro e muito menos exclusivamente a uma análise que as situem na ordem das coisas práticas e utilitárias. Isso porque, na própria Igreja a Liturgia não é algo intermediário, um caminho que conduz a um horizonte fora dele, mas como um “mundo animado e transbordante de vida, que se apoia e tem sua razão de ser em si mesmo.”  [7]É portanto, como um jogo ou – no dizer de Rubem Alves, como um brinquedo, que não existe “para levar a coisa alguma. Quem está brincando já chegou.” [8]

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1ALVES, Rubem. Educação dos Sentidos. Campinas: Verus, 2005, p. 9
2FRANCISCO. Laudato Si, n.6  disponível em
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.pdf. Acessado dia 15 de julho de 2015.
3 ALVES, Rubem. Op. Cit. p. 12.
4Idem, p. 14.
5“Muitas coisas não possuem, rigorosamente, qualquer finalidade prática; no entanto, possuem um sentido.” GUARDINI, Romano. El Espíritu de la Liturgia y El talante simbólico de la Liturgia. Buenos Aires: Agape Libros, 2005, p. 83.
“Cada gesto, cada oração, cada movimento, cada cerimônia litúrgica implica uma finalidade pedagógica, e educativa e prática.” GUARDINI, Romano. El Espíritou de la Liturgia, p.86.
7 “Um mundo vivo e transbordante de vida, que se firma e tem em si mesmo sua razão de ser.” GUARDINI, Romano. El Espíritu de la Liturgia, p. 87.
8ALVES, Rubem. Educação do Sentidos, p. 15.

Pe. Márcio Pimentel
Liturgista

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O processo da santificação é exercício diário. A santidade é caminho percorrido, é compromisso assumido, é amor doado, é saída de si. Há tantos santos e santas que estão bem próximos de nós.

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