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O rito da comunhão na celebração da Eucaristia

Nessa quinta-feira, dia 31 de maio, a Igreja celebrou a “Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor”. Cabe-nos uma pequena reflexão sobre o exercício da comunhão eucarística. Não apenas a respeito da sua forma, mas, sobretudo, no que se refere à compreensão de seu lugar no edifício da reforma do Ordo Missae. Isso porque, muita gente talvez ignore ou tenha esquecido que a comunhão na Celebração Eucarística, por parte dos fiéis, é uma prática recuperada com a reforma litúrgica.

Antes, enquanto ainda estava em uso o Missal de Pio V, o costume de a comunidade comungar após o sacerdote presidente não era mais tão natural. O grande estudioso e historiador da Missa, Jungmann, em seu célebre Missarum Solemnia escreve que a comunhão dos fiéis era tratada como uma espécie de “corpo estranho que não pertenceria à estrutura da liturgia do Missal e por isso poderia ser omitida.”1 Todos sabemos que a incursão em um mandamento da Igreja para que se comungue ao menos pela Páscoa da Ressurreição é resposta a uma crise da comunhão sacramental por parte dos fiéis.

A forma de comungar também sofreu diversas mudanças com o passar dos anos. É importante recordar que, nos albores da Eucaristia, a dimensão convivial era muito ressaltada. A entrega oblativa de Cristo Jesus aos seus fora por ele celebrada não em rito sacrifical, mas numa refeição. Conforme os evangelhos, o lugar da derradeira Ceia de Jesus, na qual a Eucaristia é instituída e nos é apresentado o banquete como memorial é o cenáculo, um refeitório. Enrico Mazza nos lembra que, naquela época, o rito da comunhão estava naturalmente ligado à prece eucarística. Citando a Didaqué, nos faz perceber que isso era natural para uma comunidade nascida do judaísmo, acostumada às ceias rituais2.

Com o passar do tempo, no período pastrístico, em especial nos séculos IV e V, quando já se concebia um rito da comunhão para além da prece eucarística; quando a teologia sacramentária já se esboçava com os Santos Padres e numa época em que a mistagogia brilhava como catequese mais fina e específica para a prática litúrgica e a vida cristã, a comunhão foi deslocada para o altar. Toda a comunidade podia se aproximar. Há uma belíssima homilia de São João Crisóstomo lida na Quaresma no Ofício de Leituras que fala sobre o altar no centro da comunidade para que ela pudesse se aproximar sem receios e obstáculos. Mais tarde, com o aparecimento dos Ordini romanos, aqui e ali se faz notar a migração da comunhão para “outra mesa” que não o altar. A liturgia galicana é a responsável por esta transição: do altar à cancela que separa a nave do recinto onde se encontra o altar.3 Daí para a frente veio a proibição das mulheres de terem acesso ao altar, até mesmo para recolher a toalha para lavá-la.

A reforma litúrgica, sem mimetizar formas da antiguidade, mas recuperando costumes mais genuínos, proporcionou, com o Rito da Comunhão plenamente integrado e reconhecido no edifício ritual da Missa, o retorno da comunhão dos fiéis junto com aquele que a preside. Após a reforma, seja com a adaptação dos lugares de culto, seja com as novas construções concebidas a partir do rito previsto nos livros litúrgicos reformados, o altar voltou à forma de mesa da Ceia, como nas origens. Também desapareceram os obstáculos para dar livre acesso livre dos fiéis (homens ou mulheres) ao único lugar – por excelência – no qual deveriam participar da comunhão. Não há mais um lugar para a comunhão do clero e outro para a comunhão do povo. Como nas origens, e seguindo o desejo de Jesus, uma só Mesa ao redor do Corpo sacramental do Filho Único.

Que a Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor seja oportunidade para recobrar este antiquíssimo uso, e não apenas para ressaltar a singularidade da presença real de Jesus no pão e no vinho consagrados. Afinal, se temos hoje pão e vinho sobre os quais Cristo mesmo eleva ao Pai a ação de graças, unido à sua Igreja pela força do Espírito, não é para outro fim (ao menos primário): permitir que nos tornemos, nEle, um único Corpo. E, assim transfigurados, como Corpo do Cristo morto e ressuscitado, prolongar no mundo sua missão. Esse é o verdadeiro culto daqueles que o adoram em espírito e verdade: uma vida oferecida como sacrifício de louvor, porque completamente identificada com o Filho Amado. Não nos esqueçamos de que o Corpo Sacramental de Cristo, portado em procissão, é conduzido por aqueles que já se tornaram nEle um só Corpo, tenho celebrado a Eucaristia.

1JUNGMANN, J. A. Missarum Solemnia. São Paulo: Paulus, 2010, p. 802.
2MAZZA, Enrico. Rendere Grazie. Bologna: EDB, 2010, p. 398. Idem, p. 403. Ver tb. a descrição de JUNGMANN,
3J.A. Idem, p. 814.

Pe. Márcio Pimentel
Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)
Paróquia São Sebastião e São Vicente

Para refletir

A Igreja no Brasil proclamou a celebração do Ano do Laicato. O que é ser leigo na Igreja? Na sociedade? Como podemos nos envolver mais e ajudar o mundo a ser melhor?

Você Sabia

Leigo significa “do povo”. Os leigos são todos cristãos que, pelo batismo, estão incorporados em Cristo e, não pertencendo ao clero (bispos, sacerdotes, diáconos), participam na missão da Igreja no mundo.