A Palavra de Deus cantada

“E o povo todo respondeu a uma só voz”

Na Celebração Eucarística, segundo o Rito Romano, se prevê para depois da “Primeira Leitura” um canto denominado “interlecional”. Trata-se de um Salmo entoado por um ministro específico, o salmista, e, na sua ausência, o leitor ou cantor. A assembleia, depois de ouvir os versículos por ele proferidos responde com o refrão previsto no Lecionário.

O Elenco das Leituras da Missa (OLM) prevê a celebração litúrgica da Palavra de Deus como oportunidade na qual Ela (a Palavra) se exprime de maneiras diversas, de modo que seja sempre viva e eficaz. Para o OLM o Salmo Responsorial é “uma parte integrante da Liturgia da Palavra”. Unido às demais leituras bíblico-litúrgicas, o Salmo Responsorial é considerado na sua riqueza pastoral, no conjunto das demais peças da Escritura desenvolvidas e concluídas pela homilia, profissão de fé e oração dos fiéis . Muito embora seja também expressão orante da Igreja, transmite a Palavra Divina que deve ser escutada e acolhida pelos fieis. Fazê-lo do Ambão como nos indica o OLM não “de um lugar oportuno” como sugere a Intrução Geral do Missal Romano nº 61, confere ao Salmo o status adequado de proclamação da Palavra de Deus cantada.

“Faremos tudo o que o Senhor disse”

O canto dos Salmos configura-se uma tradição que, na Igreja, remonta ao próprio Jesus. O Livro dos Salmos, desde épocas imemoriais, é considerado o Livro de Orações por excelência. Para Jesus, como membro do povo judeu, homem cuja atividade cotidiana brotava da oração, certo que os Salmos eram elemento chave da vida espiritual. Seja na Sinagoga, no Templo ou em sua casa, como também em suas pregações é possível reconhecermos o lugar que os poemas de louvor ocupavam em seu ministério.

Ao rezar, Jesus usará naturalmente essa oração do povo em que nasceu e ao qual pertence. Na sinagoga ou no Templo, ele se unirá aos judeus seus compatriotas, para rezar os Salmos. Quando subir a Jerusalém, ele se unirá ao grupo de peregrinos para cantar os salmos das subidas (Sl 119-133). Na última Ceia, recitará o que os judeus chamam de “Grande Hallel”, os Salmos 134-135, prescritos pela Lei nas grandes festas. Na cruz, para fazer subir a seu Pai a oração que o habita, Jesus exclamará com uma voz forte, nos mesmos termos que o Salmista do Salmo 21(22): ‘Eli, Eli, lema sabachtani: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?’ Enfim, depois de pronunciar o versículo 6 do Salmo 30(31) Jesus morre na cruz: “E Jesus clamou com uma voz forte: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’. E dizendo isso expirou”.

O canto dos Salmos nas celebrações cristãs, portanto, são tidos como herança recebida do Senhor. Nossa maneira de empregá-los e deles de o vivenciarem na Liturgia está intimamente relacionada com “seu acontecimento”. Rezamos os Salmos na esteira da tradição de Jesus. Isso nos leva a compreendê-los como composições litúrgicas portadoras de um significado cristológico.

Em diversas passagens do Novo Testamento Jesus se refere ao sentido de seu ministério e de sua identidade messiânica a partir dos Salmos. O drama final de sua vida – a paixão e morte – por ele interpretado a partir da Escritura – inclui explicitamente o livro dos Salmos: “São estas as palavras que vos falei, quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.” Desse modo, os Salmos não apenas encerram a oração de Cristo, mas sobretudo revelam sua alma, sua vida, seus desejos, inclinações e sentimentos; conduzem nosso olhar para a experiência da vontade do Pai que se realiza em sua pessoa. “Quando chegou o terceiro dia, ao raiar da manhã (…) uma nuvem cobriu a montanha”.

Os Santos Padres compreendem os Salmos como proclamação da Palavra de Deus o que significa intuir que a vontade salvadora de Deus, por eles, se torna manifesta. Por isso, Pacômio, fundador da vida monástica cenobítica (comunitária) diz que “não pode haver ninguém no mosteiro que não aprenda a ler e que não conheça de cor alguma parte das Escrituras, ao menos do Novo Testamento e do Saltério” e convida para que todos sejam “assíduos aos Salmos e orações.” Em sua “Carta a Marcelino”, Atanásio afirma que

o Livro dos Salmos… como um jardim que tivesse nele uma sementeira de frutos dos outros livros, canta-os a todos e, inclusivamente deles oferece o seus próprios frutos (…) no livro dos Salmos podem-se entender e discernir os impulsos da própria alma (…) Quem lê os salmos … diz as palavras como se fossem suas, e as salmodia como se dele mesmo tivesse escrito. Para aquele que salmodia, os salmos são como espelho no qual se pode contemplar a si mesmo, ver os impulsos de sua alma (…). Certamente, toda a Escritura é mestra da virtude e da fé verdadeira, mas o livro dos Salmos oferece, além disso, o ícone para a direção das almas. Recitar o livro dos Salmos não é cultivar o prazer do sons, mas traduzir uma harmonia interior em música (…) Os cristãos deveriam fazer suas as orações bíblicas, especialmente os salmos.

Ambrósio de Milão se pergunta

Que há de mais agradável que um salmo? Na verdade, o Salmo é a bênção do povo, o louvor de Deus, o hino dos fiéis, o aplauso da assembleia, a palavra da multidão, a voz da Igreja, a exultante confissão da fé, a expressão autêntica da piedade (…). No salmo, ao mesmo tempo canta-se com gosto e aprende-se com proveito. Haverá alguma coisa que não encontres quando lês os salmos? Neles encontro a graça da revelação, o testemunho da Ressurreição, os dons da promessa.

É bem fácil perceber nas palavras desses três padres da Igreja o quanto o Livro dos Salmos sempre foi estimado e assumido como referência obrigatória para a oração cristã privada ou litúrgica. O motivo fundamental pelo qual os Salmos são muitíssimo queridos e propostos como “regra” para a oração pode ser encontrado numa outra passagem de Ambrósio quando ele afirma que os Salmos ora anunciam Cristo, ora procedem do próprio Cristo, proclamando o que em seu corpo se realizará.

Aqui se abre para nós o conceito de “Cântico Novo”, referindo-se a uma nova realização de Deus em favor de seu povo. Trata-se de uma nova vida nascida em Deus e assumida como dom recebido pelo Povo. O cântico de Moisés após a libertação do Egito é assim classificado.

Os cristãos também entoam um “Cântico Novo”: a vitória do Cordeiro sobre a morte. É um hino pelo qual se manifesta a todo o cosmo o sentido último da criação que se dá a partir da dignidade de quem fora imolado e ressuscitado. Esse canto dirigido a Cristo se exprime assim: “foste morto e compraste para Deus com o teu sangue homens de toda tribo, língua, povo e nação; fizeste deles para nosso Deus um Reino de Sacerdotes e reinarão sobre a terra.” Esse hino com ares sálmicos celebra a transformação que se opera nos fies redimidos pelo Mistério da Páscoa. Logo, o canto novo diz respeito não apenas a um louvor sonoro-musical, mas à experiência nova que se dá pela entrega de Cristo Jesus e nossa associação a ela.

“O Monte Sinai fumegava pois o Senhor desceu sobre ele”

Xabier Basurko nos lembra que o canto mais antigo da missa é o “interlecional”, isto é, o canto ligado às leituras. São cantos tradicionalmente construídos com a estrutura responsorial predominante até o século IV. A reforma litúrgica promovida a partir do Concílio Vaticano II reconduziu o Salmo Responsorial à seu lugar de dignidade, uma vez que houve um “empobrecimento” com a fixação do Salmo Gradual, no que concerne ao caráter litúrgico. O Gradual é composto de pouquíssimos versículos e sua melodia é bastante desenvolvida o que exige grande habilidade para executá-la. O Salmo Responsorial conforme a reforma litúrgica previu, recuperou a singeleza original, devolvendo-lhe seu aspecto proclamativo pelo uso de fórmulas salmódicas ligadas à cantilena. O uso abundante do refrão também propiciou a devolução do Salmo ao seu sujeito eclesial por excelência que é a assembleia.

O percurso feito até aqui no tocante ao canto cristão dos Salmos nos indica que também na Missa o salmo responsorial necessita ser assumido em sua perspectiva de anúncio do Mistério de Cristo e também de assentimento, acolhida e resposta a este dom do Pai por parte da Assembleia. O aspecto “meditativo” deve ser compreendido nesta direção. Não se trata apenas de um movimento mental, reflexivo, mas de uma ação ritual da qual se ocupa toda a comunidade de fieis em parceria com o ministro salmista. É uma ação que envolve todos os sentidos. Pensemos, como exemplo, no Salmo Responsorial previsto para a Missa de Vigília de Pentecostes. Enquanto o salmista entoa o versículo: “Todos eles, ó Senhor, de vós esperam, que a seu tempo vós lhes deis o alimento; vós lhes dais o que comer e eles recolhem, vós abris a vossa mão e eles se fartam” a assembleia contempla o altar e nele reconhece o Evangelho como aquele alimento que o Senhor fracionará e distribuirá. Imediatamente, desde o cântico do Salmo Responsorial, já se ilumina a experiência próxima da comunhão eucarística. E não só: o alimento dado por aquele que vem como sopro vivificador (o Espírito que renova a face da terra) é a própria Palavra de Deus doada ao Povo e entregue nas mãos de Moisés no alto Sinal na forma de mandamentos; e todos que vão ao altar podem fartar-se, saciar-se da água viva que de lá jorra. Água que rejuvenesce a fé e que passam a brotar daqueles que se ocupam de sua palavra. Por sua vez, o Salmo Responsorial é já no contexto da celebração litúrgica este mesmo rio que jorra do interior dos fieis. De fato, aos olhos e ouvidos, no corpo de uma assembleia atenta e formada, o Salmo Responsorial torna-se uma experiência espiritual deveras profunda.

“O som da trombeta ia aumentando cada vez mais”

Apenas uma questão para nos ocupar: que lugar tem o Salmo bíblico em nossa vida de oração? Cultivo a experiência do ofício divino? Quais seus frutos? Como o Salmo Responsorial na Miss anos ajuda a “decifrar” o Mistério de Cristo na celebração mas também (e sobretudo) no mundo?

 

Padre Márcio Pimentel (Liturgista)

Sagrada Liturgia

Constituição Sacrosanctum Concilium (SC), carta magna da Liturgia de rito romano, foi promulgada em 4 de dezembro de 1963 pelo Papa Paulo VI. Com ela, a Igreja Latina teve a oportunidade de redescobrir a fonte de sua espiritualidade, há muito esquecida: a Sagrada Liturgia. Uma análise profunda da Constituição nos fará perceber que, em síntese, a Liturgia é Cristo. Sua vida, sua pessoa, sua palavra e suas ações podem ser contempladas, saboreadas e vividas mediante os ritos e preces da Igreja. Numa expressão muito simples, mas de grande teor teológico: “Liturgia é a encarnação do Mistério Pascal em nosso corpo.” 1

Essa compreensão sobre a Sagrada Liturgia é fruto de um longo percurso: o Movimento Litúrgico, que começou no final do século XIX. A SC só pode ser compreendida dentro deste grande processo de renovação da vida cristã. A valorização das fontes bíblicas, patrísticas e litúrgicas – documentos antiquíssimos que narram, exprimem e até regulamentam a vida espiritual da Igreja dos primeiros séculos – foi decisivo para a confecção da Constituição sobre a Liturgia.

Uma consulta mais pormenorizada do texto da SC nos fará perceber várias citações não apenas bíblicas, mas de teólogos da época patrística (Inácio de Antioquia, Agostinho). Há também muitas alusões aos textos litúrgicos (Sacramentário Veronense, Missal Romano). Por esta razão, costuma-se dizer que o Concílio devolveu a Liturgia às suas origens, uma vez que muitos elementos haviam se perdido ou descaracterizado com o passar do tempo.

Evidentemente, as orientações emanadas da Sacrosanctum Concilium não se limitam ao “restauro” de elementos rituais que tinham caído em desuso como o Salmo Responsorial, a homilia e a oração dos fieis no caso da Missa. A SC propôs uma compreensão diferente sobre a Liturgia, daquela que estava em vigor. A Liturgia, toda ela, e não apenas a Celebração Eucarística, é vista como expressão e manifestação do Mistério de Cristo total: cabeça e membros (SC 2).

Rompe-se com aquela compreensão puramente cerimonial dos ritos e parte-se para a aproximação pastoral, teológica e espiritual que entende a linguagem antropológicocultural e religiosa como decisiva para seu incremento. Sobre isso, o número 5 da SC afirma: “havendo outrora falado muitas vezes e de muitos modos aos pais pelos profetas (Hb 1,11), quando veio a plenitude dos tempos, mandou seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, para anunciar a boa nova aos pobres, curar os contritos de coração como médico da carne e do espírito, mediador entre Deus e os homens. Com efeito sua humanidade, na unidade da pessoa do Verbo, foi o instrumento de nossa salvação”.

1(PASTRO,Claudio. O Deus da beleza.  São Paulo: Paulinas, 2008, p.32

Pe. Márcio Pimentel
Liturgista

 

 

Mensagem do Papa

O Papa Francisco encerrou o ciclo de catequeses sobre o livro dos Atos dos Apóstolos, na Audiência Geral desta quarta-feira (15/01), com a última etapa missionária de São Paulo: Roma.

A audiência, realizada na Sala Paulo VI, teve como tema «Paulo recebia a todos os que o procuravam, pregando o Reino de Deus. Com toda a coragem e sem obstáculos». A prisão de Paulo em Roma e a fecundidade do anúncio.

“A viagem de Paulo, que foi a mesma do Evangelho, é a prova de que as rotas dos homens, se vividas na fé, podem se tornar um espaço de trânsito para a salvação de Deus, através da Palavra de fé que é um fermento ativo na história, capaz de transformar situações e abrir caminhos sempre novos.”

Dinamismo da Palavra de Deus

“Com a chegada de Paulo ao coração do Império, conclui-se a narração dos Atos dos Apóstolos, que não termina com o martírio de Paulo, mas com a abundante semeadura da Palavra. O final da história de Lucas, centrada na viagem do Evangelho no mundo, contém e resume todo o dinamismo da Palavra de Deus, Palavra irrefreável que deseja correr para comunicar a salvação a todos”.

Em Roma, Paulo encontra antes de tudo seus irmãos em Cristo, que o recebem e lhe dão coragem. Esta hospitalidade calorosa mostra quão aguardada e desejada era a sua chegada.

Apesar de sua condição de prisioneiro, Paulo encontra os notáveis judeus para explicar por que ele foi obrigado a apelar para César e conversar com eles sobre o Reino de Deus. Ele tenta convencê-los sobre Jesus, partindo das Escrituras e mostrando a continuidade entre a novidade de Cristo e a «esperança de Israel». Paulo se reconhece profundamente judeu e vê no Evangelho que prega, ou seja, no anúncio de Cristo que morreu e ressuscitou, o cumprimento das promessas feitas ao povo escolhido.

Depois desse primeiro encontro informal, que encontra os judeus bem dispostos, segue-se um encontro mais oficial, durante o qual, por um dia inteiro, Paulo anuncia o Reino de Deus e tenta abrir seus interlocutores à fé em Jesus, a partir da «lei de Moisés e dos Profetas». Como nem todos estão convencidos, ele denuncia o endurecimento do coração do povo de Deus, causa de sua condenação, e celebra com paixão a salvação das nações que se mostram sensíveis a Deus e são capazes de ouvir a Palavra do Evangelho da vida.

A Palavra de Deus não está acorrentada

Segundo Francisco, neste ponto da narração, Lucas conclui sua obra mostrando-nos não a morte de Paulo, mas o dinamismo de sua pregação,  de uma Palavra que «não está acorrentada». Paulo não tem liberdade para se mover, mas é livre de falar porque a Palavra não está acorrentada, mas é uma Palavra pronta para ser semeada pelo Apóstolo.

Paulo faz isso «com toda coragem e sem obstáculos, numa casa onde acolhe aqueles que desejam receber o anúncio do Reino de Deus e conhecer a Cristo.

“Esta casa aberta a todos os corações em busca é uma imagem da Igreja que, embora perseguida, incompreendida e acorrentada, nunca se cansa de acolher todos os homens e mulheres com o coração maternal para lhes anunciar o amor do Pai que se tornou visível em Jesus.”

O Papa concluiu sua catequese, desejando que no final desse itinerário, “seguindo a corrida do Evangelho no mundo, o Espírito anime em cada um de nós o chamado para sermos evangelizadores corajosos e alegres. Que Ele nos torne, “como São Paulo, capazes de impregnar nossas casas com o Evangelho e torná-las cenáculos de fraternidade, onde podemos acolher o Cristo vivo, que vem ao nosso encontro em todas as pessoas e em todos os tempos”.

No final da Audiência Geral, o Papa Francisco saudou os peregrinos brasileiros da Paróquia de Nossa Senhora da Salete, de São Paulo, os peregrinos salesianos de São Paulo, o grupo Gen 3 do Movimento dos Focolares e todos os presentes de língua portuguesa.

Sociedade sem profecias

As profecias são indispensáveis na qualificação do tecido antropológico-cultural que sustenta a vida de uma sociedade. Trata-se da necessária clarividência que deve ser a estrela-guia de todos os processos sociopolíticos e econômicos. Compreende-se que a ausência da profecia pode contribuir na perda de rumos, na cristalização de posicionamentos e dinâmicas que possam levar a desmandos do poder, à corrupção e à indiferença em relação a desigualdades e ofensas contra a dignidade humana, gerando sofrimento, principalmente, para os mais pobres e indefesos. Sem a luz da profecia, impera a obscuridade das trevas, mesmo quando vozes são propagadas, pois lhes falta a coerência necessária para promover transformações.

Conforme escritos e relatos do Antigo Testamento, a história de Israel mostra a importância determinante da profecia para se reencontrar equilíbrio nas relações. É, pois, imprescindível a presença da profecia na configuração de instituições, livrando-as da submissão aos interesses das oligarquias – sempre alheias aos pobres e sofredores. O profeta é aquele que vê o que a maioria não consegue enxergar e a profecia, obviamente, não pode se reduzir a discurso, à linguagem de impropérios, muitas vezes em tom agressivo, sem a devida coerência. O enxergar de modo lúcido não dispensa o profeta do selo de qualidade, próprio dos que cultivam conduta transparente, que não compactuam com os privilégios e as situações injustas denunciadas.

Compreende-se, assim, porque historicamente sempre existiram confrontos entre profetas, sacerdotes e reis. Esses últimos, frequentemente cegados pela posição que ocupam na sociedade, enrijecidos e, por isso, incapazes de mudar, não conseguem conquistar um modo de ver diferente, no horizonte da justiça e da verdade. Quando se apaga a luz da profecia, reinam as obscuridades, multiplicam-se os mecanismos balizadores da injustiça e, irremediavelmente, impera a indiferença, destruidora da intocável sensibilidade humana para o exercício da solidariedade. A ausência de profecia revela-se ainda no descalabro de se falar uma coisa e se praticar outra, denunciar alguém, mas usufruir dos mesmos privilégios.

A profecia é indispensável na busca pelo equilíbrio que redefine práticas, substitui hábitos, qualifica juízos e cria a mentalidade nova, pautada no mais profundo sentido de solidariedade. Importante saber: a profecia não é exclusividade de alguns poucos. Trata-se de um bem a ser praticado por todos. Em uma passagem bíblica no Livro do Êxodo, Moisés é informado que algumas pessoas não reconhecidas como profetas se dedicavam a profetizar. Prontamente, a partir de sua lucidez, Moisés proclama: quem dera se todo o povo profetizasse. Certamente, a justiça e a solidariedade estariam asseguradas no coração da sociedade. Mas, ao invés disso, os profetas sofrem oposição, e até perseguição. A clarividência da profecia incomoda pela propriedade do questionamento frontal ao exercício do poder – quando em vez de compreendido como serviço, passa a ser fonte de decadências, em razão dos abusos, da falta de interesse por Deus, das impiedades e fraudes.

No momento em que a profecia perde vigor, a sociedade se desarticula e surgem cenários sombrios, a exemplo do que se assiste na contemporaneidade. Sem ela, a sociedade não se corrige nem consegue se reerguer. A civilização atual é desafiada a cultivar linguagem profética, expressão da clarividência, capacidade indispensável para não se repetir erros, ou comportamentos como o de falar de um modo, mas incoerentemente viver e agir de outro.

Não basta o leito de qualquer que seja a ideologia, deve-se buscar algo mais, com força para refinar escutas, especialmente os clamores dos pobres, e iluminar o olhar, revigorando a profecia, que faz falta à sociedade. Cada pessoa possa assumir a condição de aprendiz, ciente de que não basta a adoção de discursos “requentados”, enfraquecidos pelas incoerências de seu porta-voz. A genuína profecia é um novo caminho, lucidez capaz de oferecer respostas coerentes. É hora de buscá-la, para consertar uma sociedade sem profecias.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Campanha Fraternidade

A CF 2020 toma como referência a Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37). A Parábola do Bom Samaritano é composta por personagens anônimos. O Sacerdote e o Levita, desviam-se do homem ferido, pois não tinham tempo para ele. O Samaritano aproxima-se da vítima dos salteadores e, movido pela compaixão, gasta seu tempo, ficando com ele à noite na hospedaria. No dia seguinte paga as despesas da sua estadia e promete retribuir ao dono da hospedaria tudo o que por ventura gastasse a mais para cuidar daquele que sofreu o assalto.

A postura inesperada do Samaritano contém o centro do ensinamento de Jesus: o próximo não é apenas alguém com quem possuímos vínculos, mas todo aquele de quem nos aproximamos. Não é a Lei, vínculo sanguíneo ou ligação afetiva que estabelecem as prioridades, mas a compaixão, que impulsiona a fazer pelo outro aquilo que nos é possível, rompendo com toda indiferença. A lei é esta: todos devem ser amados, sem distinção.

Ser capaz de sentir compaixão é a chave da obediência à vontade de Deus, que ama toda a criação: Servir! Ver! Sentir, ter compaixão e cuidar é o autêntico Programa Quaresmal.

Quaresma é tempo de abertura ao mistério da dor, morte e a cruz do Crucificado, Vencedor da Morte. A Igreja recorda que esse caminho do calvário e vitória de Cristo, exige de nós jejum, oração e a esmola. No jejum somos conectados à dor dos que tanto sofrem pela falta de vida digna. A oração, diálogo de amor e amizade, é aproximação que nos possibilita sermos tocados pelo amor e ternura de Deus. A esmola é a partilha de vida, cuidado amoroso que nasce da liberdade da renúncia para a entrega amorosa. Jesus é o verdadeiro bom Samaritano que se aproxima dos homens e das mulheres que sofrem e, por compaixão, lhes restitui a dignidade perdida. A entrega de Jesus na cruz é apenas o culminar desse estilo que marcou toda a sua vida.

Fonte: https://portalkairos.org/campanha-da-fraternidade-2020/#ixzz6BxzrpKWI

Datas móveis do calendário católico

No domingo, 5 de janeiro, em todo o Brasil,  a Igreja fez o anúncio das Solenidades móveis de todo o ano de 2020. O ano de 2020 é o ano A, no qual são proclamados no tempo comum os textos do Evangelho de São Mateus. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil disponibilizou o calendário com as datas das festas móveis. Confira abaixo:

2020 
ANO A  (São Mateus) 
Festas móveis 

Epifania do Senhor (Domingo)- 5 de janeiro

Batismo do Senhor (Domingo)- 12 de janeiro

Quarta-feira de Cinzas- 26 de fevereiro

Páscoa da Ressurreição- 12 de abril

Ascensão do Senhor- 24 de maio

Pentecostes- 31 de maio

Santíssima Trindade- 07 de junho

Corpo e Sangue de Cristo- 11 de junho

Sagrado Coração de Jesus- 19 de junho

São Pedro e São Paulo (Domingo)- 28 de junho

Assunção de N. Senhora- 16 de agosto

Todos os Santos (Domingo)- 01 de novembro

Solenidade de Cristo-Rei- 22 de novembro

1º Domingo do Advento- 29 de novembro

Sagrada Família (Domingo)- 27 de dezembro

Mensagem de Natal do Papa

Faltando uma semana para o Natal, o Papa Francisco dedicou a catequese desta quarta-feira (18/12) na Audiência Geral ao modo como estamos nos preparando para acolher o festejado.

Um modo simples, mas eficaz, afirmou o Pontífice, é preparar o presépio, recordando que este ano foi a Greccio – lugar do primeiro presépio idealizado por São Francisco – e que escreveu uma Carta Apostólica a respeito.

Evangelho vivo

O presépio, de fato, é como um Evangelho vivo e nos recorda uma coisa essencial: que Deus não permaneceu invisível no céu, mas veio sobre a Terra, se fez homem.

“Fazer o presépio é celebrar a proximidade de Deus: é redescobrir que Deus é real, concreto, vivo e palpitante. Não é um senhor distante ou um juiz desapegado, mas é Amor humilde, que desceu até nós.”

Parar diante do Menino Jesus no presépio, aconselhou o Papa, é uma ocasião para falar das pessoas e das situações que temos no coração, fazer com Ele o balanço do ano e compartilhar as expectativas e as preocupações.

Ao lado de Jesus, vemos Nossa Senhora e José. A Santa Família é um evangelho doméstico. A palavra presépio, explicou Francisco, significa literalmente “manjedoura”, enquanto a cidade do presépio, Belém, significa “casa do pão”. Esses elementos nos recordam que Jesus é o nutrimento essencial, o pão da vida. “É Ele que alimenta o nosso amor, é Ele que doa às nossas famílias a força para ir avante e nos perdoar.”

Convite à contemplação

O presépio, acrescentou o Papa, nos oferece outro ensinamento de vida: nos ritmos às vezes frenéticos de hoje é um convite à contemplação. Nos recorda a importância de parar. “Porque somente quando sabemos nos recolher, podemos acolher o que conta na vida.”

Francisco contou que ontem lhe deram de presente uma imagem pequena, com José acudindo o Menino e Maria descansando, cujo nome era: “Deixemos a mãe repousar”. “Quantos entre vocês têm que dividir a noite entre marido e mulher para acudir a criança que chora, chora, chora…Deixemos a mãe repousar. É a ternura de uma família, de um matrimônio.”

Imagem artesanal de paz

O presépio, portanto, é a imagem artesanal da paz num mundo onde todos os dias se fabricam inúmeras armas e tantas imagens violentas.

Queridos irmãos e irmãs, concluiu o Papa, do presépio podemos colher o ensinamento sobre o sentido próprio da vida. Agora não estamos mais sós, há uma novidade decisiva: Jesus.

“Jesus vem na nossa vida concreta, por isso é importante fazer um pequeno presépio sempre, porque nos recorda que Deus veio entre nós, nasceu entre nós, nos acompanha e se fez homem como nós. Na vida de todos os dias, não estamos mais sós. Ele habita conosco. Não muda magicamente as coisas, mas, se O acolhermos, todas as coisas podem mudar. Eu então faço votos de que fazer o presépio seja a ocasião para convidar Jesus na vida. Quando fazemos o presépio em casa, é como abrir a porta: entre Jesus. Fazer concreta esta proximidade, este convite a Jesus para que venha na nossa vida. Porque se Ele a habita, renasce. E se a vida renasce, é verdadeiramente Natal. Feliz Natal a todos!”

Eis que o Filho de Deus vem a nós!

Depois de quatro semanas em preparação para o “Dia de Cristo”, eis que a certeza da chegada do Senhor[1] varre a iniquidade da terra[2] de modo que a natureza humana se vê, em cada fiel, renovada [3].

É com este tom sacramental que São Leão Magno compreendia o acontecimento da Encarnação do Verbo celebrado na liturgia do Natal, como ocasião para a restauração do ser humano:[4] “Reconheça, portanto, a fé católica na humildade no Senhor a sua nobreza e a sua glória… fez-se homem do nosso gênero, para nos podermos tornar consortes da natureza divina. A fonte de vida que tomou no seio da Virgem, pô-la na fonte do batismo; deu à agua o que tinha dado à sua Mãe: porque o poder do Altíssimo e a sombra do Espírito  Santo fez com que Maria desse ao mundo o Salvador, essa mesma faz que a água regenere a quem crê.”[5]  Noutro de seus sermões por ocasião do Natal assume com tom claro: “o Natal do Senhor em que o Verbo Se fez carne, não tanto o havemos de lembrar como  acontecimento passado, mas antes imaginá-lo como se o vissem agora os nossos olhos.”[6]

A eucologia (orações) das Missas do Natal (vigília, noite, aurora e dia), em grande parte oriundas do antigo Sacramentário Veronense insistem nesta teologia na qual o Natal do Senhor é concebido como um acontecimento sacramental, isto é, como um evento que alcança os fiéis hoje: “…por este mistério nos mostrais o inicio da nossa salvação”[7] ; “Concedei, ó Deus, que sejamos renovados ao celebrarmos o Natal do vosso Filho”[8] ; “fazei que manifestemos em ações o que brilha pela fé”[9] ; “dá-nos participar da divindade do vosso Filho”[10] .

Também os cantos da Missa (Antifonal) insistem que o Natal do Senhor é um acontecimento hodierno: “Hoje sabereis que o Senhor vem”[11] ; “O Senhor me disse: ‘És o meu Filho, eu hoje te gerei’”[12] ; “Hoje surgiu a luz para o mundo”[13] .

Pondo na boca da assembleia esta teologia, a Liturgia nos incita para que assumamos em nossa corporeidade e por ela, isto é, nas relações que somos chamados a estabelecer no seio do mundo, o Mistério da Encarnação. Por esse Mistério que se torna em nós conhecido e comunicado, Deus cura o mundo por meio da carne de seu Filho.[14]

O Filho vem a nós para restabelecer o nosso diálogo com seu Pai. Para adentrarmos no clima de familiaridade com Ele. Na verdade, esse é um grande presente para o nosso mundo no momento presente. Vivemos um tempo carente da capacidade de dialogar. Crescem a intolerância e o autoritarismo.  O encontro com o outro perde, paulatinamente, sua importância humanizante.  Pelo Natal de Jesus, a fé cristã insiste na necessidade do encontro que enxerga com ternura e cuidado a face do outro e por ela se deixa interpelar. A Igreja o solicita não apenas por uma necessidade antropológica de socialização, mas porque é o encontro e o diálogo fazem parte da natureza íntima da fé e são experimentadas por ela como graça.

Este mistério clama em nós, num momento histórico no qual “crescem manifestações de preconceito racial, étnico, religioso, sexual, que pensávamos superadas. À direita e à esquerda, a partir de todos os credos, de todas as defesas que deveriam ser mais justas e generosas. Ao mesmo tempo que idiossincrasias brutais se afirmam contra pessoas e grupos, sentimentos socialmente necessários, aqueles que se voltam para o outro na intenção de compreendê-lo, acolhê-lo – em uma palavra, amá-lo – não tem lugar entre nós. A mais básica abertura a uma conversa se torna inviável quando os indivíduos estão fechados em seus pequenos universos previamente formados e informados de tudo o que supõem saber.” [15]  É neste contexto que a Liturgia do Natal nos desafia.

[1] Cf. Antífona de Entrada da Missa da Vigília.
[2]Cf. Aclamação ao Evangelho da Missa da Vigília.
[3]Cf. Oração depois da comunhão da Missa da Vigília.
[4]Cf. Sermão 5 in. Antologia Litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, n. 4279, p. 1021.
[5]São Leão Magno, idem.
[6]Sermão 9, in. Antologia Litúrgica, n. 4299, p. 1024.

[7]Oração sobre as oferendas da Missa da Vigília.
[8]Oração depois da comunhão da Missa da Vigília.
[9]Oração do Dia da Missa da Aurora.
[10]Oração do Dia da Missa do Dia.
[11] Antífona de Entrada da Missa da Vigília

[12/ Antífona de Entrada a Missa da Noite.

[13] Antífona de Entrada da Missa da Aurora.
[14] Cf. Agostinho. Tratado sobre o Evangelho de João 2,14-16 in. Lecionário Patrístico Dominical. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 544.
[15] TIBURI, Márcia. Como conversar com um fascista. Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 2015, p. 27.

Padre Márcio Pimentel  (Liturgista)

O Natal como sacramento da regeneração

Se Santo Agostinho chama o Natal de “aniversário”, ainda que com um sentido mais profundo e um significado mais abrangente do que o habitual, São Leão Magno vai muito além. Não são poucos os sermões de sua autoria que trazem consigo elementos-fonte para os textos eucológicos do tempo do Natal, sobretudo pela marcante teologia presente nos libbeli do Sacramentário Veronense, também chamado de Leonino.

Para este Papa, cujo pontificado se deu entre 440 e 461, a celebração da Natividade do Senhor passa muito distante da lembrança de uma data. É verdadeiro sacramento, pelo qual “o círculo do ano faz-nos outra vez presente (reparatur, isto é re+apresentação) o mistério (sacramentum) da nossa salvação.” Ou seja, Leão Magno compreende que, pelas vias da ritualidade litúrgica, os fiéis podem participar do nascimento de Cristo, uma vez que foram “admitidos” neste evento. A alegria e o prazer de celebrar o Natal se funda no fato de, pelo “nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual Ele Se vestiu da carne da nossa natureza” se explica em razão de “nos tornarmos consortes da natureza divina”.

A Liturgia, portanto, dá acesso ao acontecimento. É porta de ingresso no mistério. Não é apenas um ensino sobre ele, mas a condição de nossa participação nele, afinal “o que era visível em nosso Salvador passou para seus mistérios”, segundo o mesmo Papa Leão (CIC 115). Por esta razão terá muita importância para Ele o advérbio “hoje”.

“Hoje o Verbo de Deus apareceu vestido de carne… Hoje, os pastores souberam pelas palavras dos Anjos que o Salvador tinha nascido… Hoje, aos que estão à frente dos rebanhos do Senhor foi entregue nova forma de mensagem (…) A festa de hoje renova para nós o sagrado início da vida de Jesus, nascido da Virgem Maria. E enquanto adoramos o nascimento do nosso Salvador, celebramos também o nosso nascimento. Efetivamente, a geração de Cristo é a origem do povo cristão: o Natal da cabeça é também o Natal do Corpo.”

Deste modo, continua noutro lugar, “o Natal do Senhor, em que o “Verbo se fez carne”, não tanto o havemos de lembrar como acontecimento do passado, mas antes imaginá-lo como se o vissem agora nossos olhos.” E como o veem senão pela condicionalidade da mesma carne assumida pelo Verbo, cujos ritos litúrgicos são verdadeira extensão? Aliás é exatamente isto que afirma o Catecismo da Igreja Católica ao tratar da Economia Sacramental presente na Igreja: que pelos gestos (ritualidade) e palavras (Sagrada Escritura e eucologia) o mesmo Cristo age no hoje dos fiéis (cf. CIC 1088). A lógica é simples: se Deus nos alcançou na carne, abrançando e assumindo nossa humanidade para comunicar o Deus, é pela mesma carne que este mistério pascal “permanece  e atrai tudo para a vida”.

A eucologia das missas do Natal do Senhor nos apresentam com nitidez esta compreensão:

“Concedei, ó Deus, que sejamos renovados, ao celebrarmos o Natal de vosso Filho, que se faz alimento e bebida neste divino mistério.” (Oração depois da comunhão na Missa da Vigília)

“Acolhei, ó Deus, a oferenda da festa de hoje, na qual o céu e a terra trocam seus dons, e dai-nos participar da divindade daquele que uniu a vós a nossa humanidade.” (Oração sobre as oferendas, Missa da Noite)

“Nós vos pedimos, ó Deus, que estas oferendas realizem em nós o mistério do Natal.” (Oração sobre as oferendas da Missa da Aurora)

“Ó Deus que, admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participara da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade.” (Oração do Dia da Missa do Dia)

Conclui-se, pois, que a celebração do Natal do Senhor deve nos orientar na participação de um acontecimento e não, simplesmente, nos referir a uma data perdida no passado e que o caminho para isso passa por assumir os ritos como porta de acesso ao mundo do Deus-Conosco.

Padre Márcio Pimentel
Liturgista