Advento de conexões

*

Estas preciosas quatro semanas que precedem a celebração do Natal, o Advento, têm na força da Palavra de Deus um convite a cada ser humano para se renovar. No Advento, ecoa forte a voz do profeta Isaías, que apresenta esse convite a partir de metáforas interpelantes. Conforme anuncia o profeta, o povo, ao afastar-se da luz de Deus-Pai, torna-se “pano sujo”, “folha seca”. Com isso, a humanidade sofre, convive com retrocessos e prejuízos. Assim, o Advento é uma “oportunidade de ouro” concedida por Deus para que a humanidade reflita sobre suas desconexões.

Na perspectiva espiritual, essas desconexões são os pecados. Já no que se refere ao exercício da cidadania, relacionam-se com as incivilidades, desrespeito ao bem comum, à verdade e à justiça social. Invariavelmente, quando o ser humano se desconecta da luz de Deus, perde a paz. Para recuperá-la, cada pessoa deve engajar-se nas dinâmicas que façam nascer uma nova consciência moral, com incidência sobre a conduta individual, no poder público, nas instituições, nas famílias.

O Advento é oportunidade para se conectar novamente com a luz de Deus, inspirando cada pessoa a reconhecer que não basta buscar somente os “lugares confortáveis”, obter títulos, benesses e ganhos financeiros. O egoísmo incapacita as pessoas para estabelecerem conexões e as mantêm aprisionadas na faixa que gera desconexões. Essa inércia alimenta a corrupção, os desmandos, a indiferença, a mesquinhez, comprometendo a vida cidadã. O tratamento terapêutico e penitencial da atual condição humana, que compromete a paz, pede a reconfiguração das instituições e suas dinâmicas. Requer também investimentos na qualificação de processos socioculturais, educativos e da comunicação. É preciso, sobretudo, reconhecer a sacralidade das famílias. Para isso, cada pessoa precisa confrontar a própria consciência e se abrir ao Advento de conexões.

Urge, pois, uma reconfiguração nas mentalidades para alcançar as grandes mudanças que a sociedade demanda. Essas transformações significativas, quando ocorrem, são muito lentas, exatamente pela dificuldade individual em produzir e gerenciar as conexões imprescindíveis ao adequado exercício da cidadania. Desse modo, é indispensável sair da comodidade buscar a renovação pessoal necessária para assumir a responsabilidade na tarefa de transformar o mundo.
As desconexões que produzem “cegueira” diante dos graves problemas sociais geram situações que enfraquecem as instituições. Sabe-se amplamente da existência de processos e procedimentos que comprometem a saúde financeira, a lisura moral, o cumprimento de metas. Mais preocupante ainda é o vício de indivíduos em buscar apenas ganhos pessoais, em seguir as leis do carreirismo, querendo alcançar posições hierárquicas mais elevadas, a qualquer custo. Há ainda um desajuste na gestão das instituições. Por preferir não lidar com os que já se consolidaram em suas comodidades, esse tipo de gestão condena a instituição a transitar entre a mediocridade e a conivência. Essa incompetência humana para relacionar-se com o próximo e com a própria realidade é claro sinal da desconexão com Deus.

É lamentável quando um indivíduo tem sólida formação intelectual e técnica, mas mantém uma condição afetivo-espiritual acanhada. Inevitavelmente, essa pessoa produzirá desconexões em série. Ao contrário, as várias áreas do conhecimento – a exemplo da neurociência e dos estudos da psicogenética – devem servir para apontar caminhos que possam ajudar no processo de renovação pessoal, tão necessário para evitar que a sociedade seja marcada pela delinquência e mediocridade.

O cérebro humano tem um número de conexões sinápticas que, em quantidade, se assemelham às dimensões de uma galáxia. Cada pessoa guarda no coração sentimentos que definem modos de agir e de perceber o mundo. Todos precisam reconhecer o próprio potencial para despertar e engajar-se em novos processos de qualificação humana e espiritual. Se cada cidadão não abrir seus próprios olhos para as muitas desconexões, a humanidade ficará ainda mais semelhante a um “pano sujo” ou “folha seca”, bem diferente do plano de Deus. A mudança começa pelo humilde compromisso de bater no próprio peito, assumir responsabilidades, e exercitar a difícil tarefa de se observar.

Para ajudar cada pessoa a reconhecer-se como importante na transformação do mundo, a respeitar e a amar o seu semelhante, resgatando a dignidade humana, é que o Filho de Deus vem, nasce e entra na história, com o paradigma de sua encarnação: um broto de esperança para o mundo, Advento de conexões.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Mensagem do Papa

A lembrança das etapas na Tailândia e no Japão marcou a Audiência Geral do Papa Francisco na Praça São Pedro. “Para proteger a vida, é preciso amá-la, e hoje a grave ameaça nos países mais desenvolvidos é a perda do sentido de viver”, alertou.

Ao agradecer às autoridades governamentais e eclesiásticas dos dois países, o Pontífice afirmou que a visita aumentou a sua proximidade e o seu afeto por aqueles povos: “Deus os abençoe com abundância de prosperidade e de paz”.

Povo thai: povo do belo sorriso
Começando pela primeira etapa, Francisco recordou que a Tailândia é um antigo Reino que se modernizou fortemente. O povo “thai” é o “povo do belo sorriso. As pessoas ali sorriem. Encorajei o empenho pela harmonia entre os diversos membros da nação e para que o desenvolvimento econômico possa ir em benefício de todos e sejam sanadas as chagas da exploração, especialmente das mulheres e dos menores”. Sobre a religião budista, parte integrante da história e da vida do povo tailandês, o Papa citou o encontro com o Patriarca Supremo e com os líderes ecumênicos e inter-religiosos.

Com a comunidade católica local, o Pontífice viveu momentos de convívio com os sacerdotes, os consagrados, os bispos, os jesuítas. Celebrou duas missas e conheceu de perto o trabalho do Hospital São Luís em prol dos últimos. “Ali experimentamos que na nova família formada por Jesus Cristo existem também os rostos e as vozes do povo Thai”.

Japão: capacidade extraordinária de lutar pela vida

Depois, foi a vez do Japão, cujo lema “Proteger cada vida” acompanhou a sua visita. O país, afirmou, “carrega impressas as chagas do bombardeio atômico e é em todo o mundo porta-voz dos direitos fundamentais à vida e à paz”.

Em Nagasaki e Hiroshima, o Papa rezou, encontrou sobreviventes e familiares das vítimas. “Reiterei a firme condenação das armas nucleares e da hipocrisia de falar de paz construindo e vendendo artilharia bélica.”

Depois daquela tragédia, prosseguiu, o Japão demonstrou uma extraordinária capacidade de lutar pela vida e o fez inclusive recentemente depois do tríplice desastre de 2011: terremoto, tsunami e acidente na central nuclear.

“ Para proteger a vida, é preciso amá-la, e hoje a grave ameaça nos países mais desenvolvidos é a perda do sentido de viver.”

As primeiras vítimas do vazio de sentido, apontou Francisco, são os jovens. Por isso, dedicou um encontro a eles em Tóquio, aos quais encorajou a se opor a toda forma de bullying, e a vencer o medo e o fechamento abrindo-se ao amor de Deus.

“Auspiciei uma cultura de encontro e diálogo, caracterizada pela sabedoria e amplidão de horizonte. Permanecendo fiel aos seus valores religiosos e morais, e aberto à mensagem evangélica, o Japão poderá ser um país condutor por um mundo mais justo e pacífico e pela harmonia entre homem e meio ambiente.”

Queridos irmãos e irmãs, finalizou o Papa, “confiemos à bondade e à providência de Deus os povos da Tailândia e do Japão”.

Fundação Nizami Ganjavi

Antes da Audiência Geral, o Papa Francisco recebeu os membros da Fundação Nizami Ganjavi. Trata-se de uma organização dedicada à memória do grande poeta do Azerbaijão do século XII, com a finalidade de promover a paz no diálogo e no respeito mútuo.

Francisco encorajou a Fundação a prosseguir neste caminho, sobretudo no que diz respeito ao desafio das mudanças climáticas, convencidos de que a cultura do diálogo é a via mestra, a colaboração é a conduta mais eficaz e conhecimento recíproco é o método para crescer na fraternidade entre as pessoas e os povos.

Iniciação Teológico-Pastoral

PROCESSO SELETIVO 2020
Encontram-se abertas as inscrições para o processo seletivo 2020 do CITEP. 
– Período de Pré-Inscrição: 01/11/2019 a 31/01/2020
– Período do Processo Seletivo 2020: 03/02/2020 a 21/02/2020.
– INÍCIO DO CURSO: 03/03/2020 (TERÇA).
– Valor da inscrição para o Processo Seletivo: R$ 30,00 (pagamento no dia da entrevista)

– Local: FAJE 

Dúvidas podem ser esclarecidas no telefone (31) 3115-7013

O Curso de Iniciação Teológico-Pastoral (CITEP) é uma iniciativa do Núcleo de Extensão e Especialização (NEE), coordenado por um grupo de voluntários. No período de três anos, com aulas às 3ªs e 5ªs feiras, das 20h às 21h45, dá-se uma visão de conjunto da teologia e da pastoral, nas suas diversas áreas. Também é oferecida a introdução aos Exercícios Espirituais, com possibilidade de acompanhamento individualizado.

Público-alvo: agentes pastorais em âmbito comunitário ou paroquial que desejam aprofundar sua fé, capacitar-se para a evangelização e atuar na sociedade.

Carga horária: 384 horas/aula, distribuídas ao longo de 3 (três) anos, com certificado de CURSO LIVRE da FAJE.

Investimento mensal: R$ 45

Mais Informações: secextensao@faculdadejesuita.edu.br
(31) 3115-7013 (9h às 12h / 13h às 17h)
Ou através do Telefone (31) 3115-7013 (Secretaria do Núcleo de Extensão e Especialização – 8h30 às 17h)

Copie o link abaixo e faça sua inscrição:

https://www.faculdadejesuita.edu.br/iniciacao-teologica-para-leigos-177/iniciacao-teologica-para-leigos-177

 

Advento – caminhando para o Natal

Com o advento iniciamos o ciclo do Natal. Tempo de fazer memória da manifestação do Senhor em sua encarnação e em nossa história. O Advento, palavra latina que significa “aproximar-se”é o tempo que nos convida à preparação do nosso coração para receber o menino-Deus. É um tempo que proclama o anúncio do Senhor que vem. Celebrando esse tempo vamos ouvindo vozes sempre atuais daqueles que, no decorrer da história o anunciaram: os profetas bíblicoschegando até João Batista, a voz do próprio Jesus que chega e vem nos anunciar a proximidade do Reino de Deus e nos ensinar como fazer a vontade do Pai.

Vivenciando o ciclo do natal, fazemos a experiência memorial da vinda do Senhor em nossa humanidade através das solenidades do natal, da epifania do Senhor e da mãe de Deus, festas da Sagrada família e do Batismo do Senhor. Na nossa liturgia fazemos muitas referências ao Tempo. Essa palavra é muito importante para a compreensão do caminhar da nossa fé celebrando O Tempo Litúrgico. No decorrer desse tempo temos: o Tempo do advento, Tempo Pascal e Tempo Comum. Através desses Tempos Litúrgicos somos orientados para as celebrações e preparação de cada uma delas, sempre atentos às músicas, ornamentações, cores litúrgicas próprias de cada tempo, os símbolos significativos, respeitando, assim, as características de cada tempo.

O “Tempo” celebrativo carrega consigo particular importância na celebração do Mistério de Cristo. Para o cristão, o tempo é a categoria dentro da qual se realiza a salvação. Este é o motivo pelo qual a Igreja, no decorrer do ano, distribui todo o Mistério de Cristo, desde o Mistério da Encarnação e Natividade, até a Ascensão, o dia de Pentecostes e a expectação (aquele que está em intensa expectativa), da feliz esperança e retorno do Senhor.

Podemos dizer que o Ano Litúrgico não é uma sequência de ideias, de festas, umas mais importantes do que outras, mas é uma Pessoa, Jesus Cristo. A salvação por ele oferecida e realizada “especialmente por meio do Mistério Pascal, da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição da Morte e gloriosa Ascensão” (SC n. 5), é oferecida e comunicada nas várias ações sacramentais que caracterizam o dinamismo do calendário cristão. A história da salvação que continua no dia-a-dia da Igreja constitui, portanto, o elemento de sustentação do Ano Litúrgico.

Podemos olhar para o Tempo do Advento e vê-lo como um tempo para toda a Igreja. Iniciar-se com ele e se deixar conduzir para o dentro do “Mistério” da vida do Cristo participando da mística cristã. Caminhando com ele, também se colocar de plantão, fazendo a experiência do tempo escatológico que o Advento nos proporciona, recordando a dupla vinda do Senhor: a vinda do Senhor entre os homens e a sua vinda, no final dos tempos. Nos dois primeiros domingos nos situamos no tempo escatológico quando a liturgia nos indica os sinais do Reino presente na história através de Jesus Cristo. A partir do terceiro domingo experimentamos a alegria de se perceber próxima a sua chegada e nos preparamos para a sua aparição histórica em nossa carne. É o advento Natalino.

Coloquemo-nos “vigilantes” e preparemos alegremente para vinda do Senhor. Deus é fiel às suas promessas: o Salvador virá.

Como nos diz padre Adroaldo: “O Tempo do Advento tem algo de belo e atraente que mobiliza o nosso coração a entrar em outra sintonia; tal qual um sedutor, ele revela sua capacidade para debulhar dias até completar um tempo que vai nos guiando em direção ao Natal. Um tempo tão tranquilo, tão sussurrante, como um manancial que, em silêncio, vai espalhando vida em todo seu entorno. Tempo que nos convida a sonhar e a viver despertos”.

Neuza Silveira de Souza. Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético der Belo Horizonte.

Advento: Tempo de experimentar a misericórdia de Deus

Advento, Tempo de nos prepararmos para celebrar o nascimento d’Aquele que veio ao nosso encontro, o Sol Nascente, que veio nos visitar, o nascimento que mudou o rumo da história da humanidade e de toda a criação.

Advento, Tempo fecundo de vigilância e oração, na espera da Luz, que resplandeceu naquela Noite Santa, e em todas as noites escuras por que possamos passar, pois quem O acolhe, O ama e O segue, jamais andará nas trevas, como Ele mesmo, um pouco mais tarde, nos falaria.

Advento, Tempo de redescobrir a força e a beleza da Palavra de Deus, Pão que sacia nossa fome, água cristalina para nossa sede de vida, amor, paz e luz para o nosso caminho, ainda que a escuridão teime em nos desviar do verdadeiro Caminho, Verdade e Vida, Jesus.

Advento, Tempo de nos abrirmos à Misericórdia de Deus, que vem ao nosso encontro na Pessoa de Jesus, que, ao Se encarnar, foi a própria misericórdia que se encarnou e habitou entre nós, e no-la ensinou a viver, para que misericordiosos como o Pai sejamos (Lc 6, 36).

Advento, Tempo de todos os dias de nossa caminhada, marcada pela presença de Deus, que guia os nossos passos com a força e a graça do Espírito, permitir que ela infunda em nosso coração o Seu amor, para amá-Lo, como convém, em correspondência desejável de amor.

Advento, Tempo da misericórdia para todos, sem nenhuma exclusão, de modo que ninguém possa pensar ou sentir que é indiferente para Deus, que ama sem exceção e a todos quer comunicar a força de Sua ternura e carícia, através daqueles que n’Ele creem.

Advento, Tempo da misericórdia para todos quantos que se sentem fracos e indefesos, afastados e sozinhos, para que vivenciem a presença de irmãos e irmãs presentes e solidários, nas mais diversas realidades e necessidades.

Advento, Tempo favorável para vivermos com criatividade e ousadia as obras de misericórdia corporais e espirituais, pois o mais belo Natal do Senhor acontece quando O vemos presente em cada um que de nós se aproxima suplicando um pouco de vida, alegria, consolação e paz.

Advento, Tempo da misericórdia, para que os pobres sintam pousado sobre si o olhar respeitoso, mas atento daqueles que, vencida a indiferença, são promotores da cultura da misericórdia e da solidariedade, descobrem e promovem a beleza e a sacralidade da vida.

Advento, Tempo da misericórdia, para que cada pecador não se canse de pedir perdão e sinta a mão do Pai, que sempre acolhe e abraça, assim como puderam experimentar a pecadora surpreendida em adultério, e aquela que ao Senhor muito amou, e aos Seus pés se prostrou (Jo 8,1-11; Lc 7,36-50).

Advento, Tempo de nos prepararmos e ouvirmos Sua Mãe, a primeira que abria a procissão e nos acompanha no testemunho do amor, e nos indica sem cessar o seu Divino Filho, em seu ventre encarnado por Obra do Espírito Santo, e nos manda fazer tudo o que Ele nos disser (Jo 2, 1-11).

Advento, Tempo de nos prepararmos para celebrar com júbilo, na Noite Santa, o Nascimento na fragilidade de uma Criança, e em Seu rosto contemplar “o rosto radiante da misericórdia de Deus”, que se estende de geração em geração, como cantou Sua e nossa amada Mãe Santíssima, Maria. Amém!

PS: Inspirado no parágrafo no parágrafo n.21 da Carta Apostólica “Misericordia et misera”

Dom Otacilio Ferreira de Lacerda

Os leigos dão o húmus para o crescimento da fé

Uma chuva intermitente marcou a Audiência Geral desta quarta-feira no Vaticano. Os doentes foram acomodados na Sala Paulo VI e receberam a saudação do Pontífice antes que se dirigisse à Praça São Pedro.

A catequese foi dedicada ao casal Áquila e Priscila, prosseguindo o ciclo sobre os Atos dos Apóstolos. Na semana passada, o Papa falou da chegada de Paulo a Atenas. Nesta quarta, comentou a prossecução da viagem. Ao deixar o coração da Grécia, o Apóstolo se dirige a Corinto, onde ali encontra hospitalidade na casa de Áquila e Priscila, que, por serem judeus, foram obrigados a abandonar Roma por ordem imperador Cláudio.

Perseguir os judeus não é humano

O Papa fez um parêntese para recordar que povo judeu sempre sofreu na história com expulsões e perseguições. “No século passado vimos tantas brutalidades que foram cometidas e estávamos convencidos de que isso tinha acabado”, afirmou. Mas hoje começa a renascer o hábito de persegui-los.

“ Irmãos e irmãs, isso não é humano nem cristão. Os judeus são nossos irmãos e não devem ser perseguidos. ”

Retomando a catequese, o Papa afirmou que o gesto do acolhimento dos esposos leva a “descentralizar de si para praticarem a arte cristã da hospitalidade e abrir as portas de sua casa para acolher o Apóstolo Paulo”. Deste modo, eles acolhem não só o evangelizador, mas também o anúncio que ele leva consigo: o Evangelho de Cristo. Com o casal, Paulo compartilha também a atividade profissional, isto é, a construção de tendas.

“Domus ecclesiae”

De fato, Áquila e Priscila abrem as portas também para os irmãos e irmãs em Cristo, formando uma comunidade, uma “domus ecclesiae” para a escuta da Palavra de Deus e a celebração eucarística. “Também hoje em alguns países onde não existe liberdade religiosa, os cristãos se reúnem em uma casa, um pouco escondidos, para rezar e celebrar a eucaristia.”

Depois de um ano e meio na cidade, Paulo parte rumo a Éfeso com o casal, e também ali a sua morada se torna um local de catequese. Por fim, os dois esposos fazem regresso a Roma e o Apóstolo chega a fazer um agradecimento ao casal na Carta aos Romanos, afirmando que eles arriscaram as suas cabeças para salvar a sua vida.

“Quantas famílias em tempo de perseguições arriscam suas cabeças para manter escondidos os perseguidos. Este é o primeiro exemplo”, afirmou Francisco.

Os leigos oferecem o húmus

Entre os inúmeros colaboradores de Paulo, destacou, Áquila e Priscila emergem como modelos de uma vida conjugal responsavelmente empenhada a serviço de toda a comunidade cristã e recordam que graças à fé e à evangelização de tantos leigos, o cristianismo chegou até nós. “O cristianismo foi pregado pelos leigos, são eles, em virtude do seu batismo, os responsáveis por levarem a fé”. O Papa citou uma expressão de Bento XVI, que afirma que os leigos oferecem o “húmus” para o crescimento da fé.

Ao se dirigir especialmente aos recém-casados presentes na Audiência, Francisco concluiu:

“Peçamos ao Pai que efunda o seu Espírito sobre todos os casais cristãos para que, a exemplo de Áquila e Priscila, saibam abrir as portas de seus corações a Cristo e aos irmãos e transformem suas casas em igrejas domésticas. Bela palavra… Uma casa é uma igreja doméstica onde viver a comunhão e oferecer o culto da vida vivida com fé, esperança e caridade.”

“ Devemos rezar a estes dois santos para que nos ensinem a ser como eles, uma igreja doméstica, onde haja o húmus para que cresça a fé. ”

JO. Arquidiocese de Belo Horizonte

 

 

 

O verbo de Deus virá a nós

Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta, não. Na primeira vinda o Senhor apareceu na terra e conviveu com os homens. Foi então, como ele próprio declara, que viram-no e não o quiseram receber. Na última, todo homem verá a salvação de Deus (Lc 3,6) e olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10). A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos o veem em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira, o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária, vem espiritualmente, manifestando o poder de sua graça; na última, virá com todo o esplendor da sua glória.

Esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho que conduz da primeira à última; na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na intermediária, é nosso repouso e consolação.

Mas, para que ninguém pense que é pura invenção o que dissemos sobre esta vinda intermediária, ouvi o próprio Senhor: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele (cf. Jo 14,23). Lê-se também noutro lugar: Quem teme a Deus, faz o bem (Eclo 15,1). Mas vejo que se diz algo mais sobre o que ama a Deus, porque guardará suas palavras. Onde devem ser guardadas? Sem dúvida alguma no coração, como diz o profeta: Conservei no coração vossas palavras, a fim de que eu não peque contra vós (Sl 118,11).

Guarda, pois, a Palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem e tua alma se deleitará na fartura. Não esqueças de comer o teu pão para que teu coração não desfaleça, mas que tua alma se sacie com este alimento saboroso.

Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará. Virá a ti o Filho em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas. Graças a essa vinda, como já refletimos a imagem do homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do homem celeste (1Cor 15,49). Assim como o primeiro Adão contagiou toda a humanidade e atingiu o homem todo, assim agora é preciso que Cristo seja o senhor do homem todo, porque ele o criou, redimiu e o glorificará.

 

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)
Paróquia São Sebastião e São Vicente

Mensagem do Papa

O Papa Francisco prosseguiu o ciclo de catequeses sobre os Atos dos Apóstolos, na Audiência Geral, desta quarta-feira (16/10), que teve como tema “Deus não faz diferença entre as pessoas. Pedro e a efusão do Espírito Santo sobre os pagãos”.

“A viagem do Evangelho no mundo, que São Lucas narra nos Atos dos Apóstolos, é acompanhada pela suprema criatividade de Deus que se manifesta de forma surpreendente”, frisou o Papa, destacando que o Senhor “deseja que os seus filhos superem toda particularidade para se abrirem à universalidade da salvação. Este é o objetivo, pois Deus quer que todos sejam salvos”.

Sair de si e se abrir aos outros

Aqueles que renasceram da água e do Espírito são chamados a “saírem de si mesmos e se abrirem aos outros, a viverem a proximidade, o estilo do viver juntos que transforma toda relação interpessoal em experiência de fraternidade”, disse ainda Francisco.

Pedro é testemunha desse processo de “fraternização” que o Espírito quer desencadear na história. Pedro, protagonista nos Atos dos Apóstolos junto com Paulo, “vive um evento que dá uma virada decisiva na sua existência. Enquanto reza, tem uma visão que é como uma provocação” divina que desperta nele uma mudança de mentalidade.

“Ele vê uma toalha grande que desce do alto com vários animais: quadrúpedes, répteis e pássaros, e ouve uma voz que o convida a comer aquelas carnes. Como um bom judeu, Pedro reage, dizendo que nunca comeu nada de impuro, conforme pedido pela Lei do Senhor. Então a voz rebate com força: «Não chame de impuro o que Deus purificou».

“ Com esse fato, o Senhor quer que Pedro não avalie mais os eventos e as pessoas de acordo com as categorias de puro e impuro, mas que aprenda a ir além, a olhar a pessoa e as intenções de seu coração. ”

“O que torna o homem impuro, de fato, não vem de fora, mas de dentro, do coração. Jesus disse isso claramente.”

Segundo o Papa, depois dessa visão, Deus envia Pedro à casa de um estrangeiro incircunciso, Cornélio, “centurião da coorte chamada itálica, religioso e temente a Deus”, que dá muitas esmolas ao povo e orava sempre a Deus, mas não era judeu. Naquela casa de pagãos, Pedro prega Cristo crucificado e ressuscitado e o perdão dos pecados a quem Nele crê. Enquanto Pedro fala, o Espírito Santo desce sobre Cornélio e seus familiares. Pedro os batiza em nome de Jesus Cristo.

Um evangelizador não pode ser um empecilho

“Esse fato extraordinário fica conhecido em Jerusalém, onde os irmãos, escandalizados pelo comportamento de Pedro, o repreendem severamente. Pedro fez algo que estava além do costume, além da lei! Por isso, eles o censuram”, sublinhou Francisco.

“Depois do encontro com Cornélio, Pedro está mais livre de si mesmo e mais em comunhão com Deus e com os outros, porque viu a vontade de Deus na ação do Espírito Santo. Ele entendeu que a eleição de Israel não é a recompensa pelo mérito, mas sinal do chamado gratuito para ser mediação da bênção divina entre os povos pagãos.”

O Papa convidou os fiéis a aprenderem do “príncipe dos Apóstolos que um evangelizador não pode ser um empecilho para a obra criativa de Deus que quer que todos se salvem, mas alguém que favoreça o encontro dos corações com o Senhor”.

A seguir, Francisco perguntou: “Como nos comportamos com os nossos irmãos, sobretudo com aqueles que não são cristãos. Somos um empecilho para o encontro com Deus? Somos um obstáculo para o seu encontro com o Pai ou o facilitamos?”

“Peçamos a graça de nos deixar surpreender pelas surpresas de Deus, de não impedir a sua criatividade, mas de reconhecer e favorecer os caminhos sempre novos pelos quais Cristo Ressuscitado derrama o seu Espírito no mundo e atrai os corações”, concluiu o Pontífice.

A Liturgia comparada como método de estudo

A nostalgia é uma daquelas tentações que sempre rondam a comunidade cristã: “tentação bastante antiga”, segundo Massimo Faggioli, teólogo e historiador da Igreja. O estudioso afirma que essa tentação pode levar ao que ele denomina “estado de negação”, de modo que sejamos iludidos sobre um possível retorno ao passado. Mas, como dissera outrora o Papa Francisco, voltar ao passado não é possível. Em matéria litúrgica, seria inclusive um insulto contra o Espírito Santo, que dotou a Igreja de formas novas e necessárias para fazer memória do evento Pascal de Cristo. Ao passado não se pode retornar, mas é possível considerá-lo como fonte.

Nesse sentido é que se compreende o conjunto dos procedimentos eclesiais que visaram recuperar a jovialidade da experiência evangélica na Igreja pós-conciliar. Dentre esses empenhos, a reforma litúrgica rebrilha, sobretudo, por seu caráter de ‘retorno às fontes’ bíblicas, litúrgicas e patrísticas. É necessário conhecer esse processo longa e responsavelmente preparado por quase um século, e que resultou na reforma dos ritos. Na verdade, é preciso conhecer mais a fundo os vários processos de reforma e transformação pelos quais a Liturgia passou, desde o cenáculo, para valorar de maneira significativa aquilo que o Concílio Vaticano II nos proporcionou.

O marco da Liturgia Comparada

Construir a ‘história da Liturgia’ é tarefa, sobretudo, para especialistas – muito embora devamos todos estudar e beber de suas descobertas e nos formar aproveitando seus empenhos e pesquisas. Dentre vários especialistas do estudo da historiografia litúrgica, temos Anton Baumstark que nos brindou, na década de 50 do século passado, com seu método de estudo da Liturgia chamado “Liturgia Comparada”.

No primeiro capítulo de sua publicação, Baumstark afirma que:

“Na liturgia se escuta como bate o coração da igreja. Na oração que se eleva até o trono de Deus, na plenitude da graça sacramental que desce sobre a comunidade dos fiéis, se capta a poderosa respiração do corpo místico de Cristo […] Estas pulsações, pois, jamais darão lugar ao rigor cadavérico que se apresenta entumecido por uma definitiva imobilidade. Se este intercâmbio de orações e de graças, ‘sustança’ da vida litúrgica, deve ser invariável com o passar de todos os séculos e idêntico em todos os ritos, as formas mesmas que a liturgia toma, se encontram, por sua natureza, submetidas a uma constante evolução”.

O magistério eclesial concorda com esta intuição de Baumstark. No primeiro número da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC), encontraremos a seguinte afirmação:

“O sagrado Concílio propõe-se a fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar a união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia”.

Padre Márcio Pimentel
Liturgia