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Primeira mistagogia da oração do Senhor I

O Pai nosso é a oração que o Senhor Jesus deu aos seus discípulos, quando esses solicitaram: “Senhor, ensina-nos a orar como João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). A oração que foi, por Jesus, dada aos discípulos, é cunhada pela tradição da Igreja como “Oração do Senhor”, ou “Oração do cristão”. Nas celebrações dos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, essa oração sempre comparece introduzida por um convite presidencial. O convite varia nas suas formulações, mas obedece à mesma função de reunir os orantes e motivá-los à oração. Essa motivação, pela variedade e conteúdo, revela a importância da oração para a Igreja e para os fiéis:

Na Eucaristia (Missal Romano)

–  Obedientes à palavra do Salvador e formados por seu divino ensinamento, ousamos dizer:
-Rezemos, com amor e confiança, a oração que o Senhor Jesus nos ensinou:
-O Senhor nos comunicou o seu Espírito. Com a confiança e a liberdade de filhos, digamos juntos:
-Antes de participar do banquete da Eucaristia, sinal de reconciliação e vínculo de união fraterna, rezemos, juntos, como o Senhor nos ensinou:
-Guiados pelo Espírito de Jesus e iluminados pela sabedoria do Evangelho, ousamos dizer:

Na Iniciação cristã de adultos (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos)

-N. liberto dos teus pecados e regenerado por Deus Pai, te tornaste seu Filho em Cristo. Antes de receber o corpo de Cristo, no Espírito de filho adotivo que hoje te foi conferido, reza juntamente conosco como o Senhor nos ensinou:

No batismo de crianças (Ritual do Batismo de crianças):

-Estas crianças que foram batizadas são chamadas, em Cristo, a viver plenamente como filhos e filhas de Deus Pai. Para isso, elas precisam também ser fortalecidas pelo Espírito Santo no sacramento da confirmação e alimentadas na Ceia do Senhor. Agora, ao redor dessa Mesa, unidos no Espírito, rezemos:
No sacramento da reconciliação (Ritual da Penitência):
-Roguemos agora a Deus, nosso Pai, com as mesmas palavras que Cristo nos ensinou, a fim de que perdoe nossos pecados e nos livre de todo o mal

No sacramento da Unção dos enfermos:

-Agora, todos juntos, roguemos a Deus, como nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou:

O que Jesus tem de seu

O que Jesus dá aos seus discípulos é mais que uma fórmula. Ele concede a eles algo muito próprio da sua relação com Deus. Para Jesus, Deus é Pai e é Rei ¹.  Essas duas imagens são simbólicas e traduzem experiências variadas e diversas, sempre abertas, porque igualmente ricas de significados. Dizer que Deus é Pai ou Rei pode variar o sentido a partir da experiência que se faz de reinado ou da paternidade. Pode também variar a partir da cultura ou da condição social, ou da situação histórica. Os povos circunvizinhos da Palestina, no tempo de Jesus, eram habituados a chamar a Deus de Pai. Contudo, em relação ao povo do Antigo Testamento, nas escrituras da Antiga Aliança essa designação aparece apenas quase duas dezenas de vezes²,  praticamente ao modo metafórico, como a frequente fórmula encontrada no segundo livro de Samuel, “ele será para mim como um filho e eu serei para ele como um pai”. Isto é, o judeu era muito reservado para chamar a Deus de Pai. Mas a partir do Novo Testamento essa característica muda radicalmente. Só nos evangelhos sinóticos a marca de quase duas dezenas é superada por um número de 67 vezes, sendo que dessas, 10 vezes é usada apenas por Jesus. Estamos diante de uma novidade que tem origem na pessoa de Jesus mesmo! Essa novidade, considerada a maior pretensão de Jesus, assinala uma originalidade fundamental da fé cristã:

Ele se comporta para com Deus como o filho por excelência, como o demonstra a palavra Abbá que Marcos põe em seus lábios na cena da agonia no horto (cf. Mc 14,36). Há nessa cena algo mais e um salto que a espiritualidade judia não havia dado senão excepcionalmente, enquanto que o termo se difunde no Novo Testamento. É um termo que expressa familiaridade de trato – papai -, o caráter único da relação existente entre Deus e Jesus. Este termo, de ressonâncias joânicas e profundamente semíticas, está, sem dúvida, presente em Mateus e em Lucas, na exclamação de júbilo de Jesus, que não hesita em dizer: “Ninguém conhece ao Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27; Lc 10,22)³.

Isso que chamamos ser a maior pretensão de Jesus, é algo original da sua relação com Deus. Ser Filho, ser gerado, é a especialidade da segunda Pessoa da Trindade Santa, assim como ser Pai é a especialidade da primeira Pessoa. O Verbo é Filho desde toda a eternidade, mas ao assumir a condição humana, vive historicamente, no limite e na fragilidade humana, aquilo que era do seu ser junto de Deus Pai. Ser humano é ser em construção, é tornar-se, é aprender, é crescer, é amadurecer. Assumindo a nossa humanidade, o Verbo cumpre a tarefa de fazer coincidir humanamente a sua filiação que já tinha junto de Deus, previamente à encarnação.

E o ser filial de Jesus se desdobra em duas atitudes básicas e complementares: obediência e oração. Ser filho é estar inteiramente aberto ao Pai na escuta e na resposta. Escuta em sentido profundo, quem obedece (obeodire = escutar, dar ouvidos, obedecer). Responde em sentido profundo, quem escutou verdadeiramente, quem obedeceu, isto é, ora de verdade.

A obediência é a virtude filial por excelência. Jesus “se tornou obediente” (Fl 2,8). Ele lutou por isso: “Abbá! Se é possível […] Não a minha vontade, mas a tua” (Mc 14,36). “Aprendeu o que significa a obediência por aquilo que sofreu” (Hb 5,8). Ele devia tornar-se obediente; não porque tenha sido algum dia insubmisso, mas porque, na Terra, ninguém pode praticar um ato absoluto, eterno. Tudo é fragmentado. Tudo é medido pelo tempo. Hoje se pratica um ato de obediência a Deus, no dia seguinte é preciso praticá-lo de novo. Mas Jesus se tornou “obediente até à morte”, em um ato absoluto de submissão, na medida da infinita paternidade de Deus. Ao aceitar a morte, ele consente em existir só para o Pai que o gera e se torna, na plenitude de sua liberdade humana, o Filho que é desde o início4.

Na oração, Jesus exprime sua total abertura ao Pai que lhe fala. “A oração é um ato filial. Quem ora deixa-se gerar, filializa-se quando ora”5.  Na oração, o Pai o reconhece como Filho (cf. Lc 3,21-22). Esses dois desdobramentos da filiação de Jesus encontram na cruz uma convergência: nela se manifesta o Filho na sua máxima obediência, nela se manifesta a sua oração filial: “Pai, em tuas mãos, entrego o meu espírito” (Lc 23,46; cf. Sl 31,6).

 

Padre Danilo César dos Santos Lima –  liturgista

Arquidiocese de Belo Horizonte

Para refletir

A Igreja no Brasil proclamou a celebração do Ano do Laicato. O que é ser leigo na Igreja? Na sociedade? Como podemos nos envolver mais e ajudar o mundo a ser melhor?

Você Sabia

Leigo significa “do povo”. Os leigos são todos cristãos que, pelo batismo, estão incorporados em Cristo e, não pertencendo ao clero (bispos, sacerdotes, diáconos), participam na missão da Igreja no mundo.